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capítulo XXXVIII – O Grande Circo do Olho Verde

Ana e Justus desataram a caminhar para onde estavam a minutos atrás. Os pés dos meninos tropegavam desastrosamente na terra batida da inclinada subida e os tênis levantavam hora ou outra uma fina poeira avermelhada do solo. O clima era extremamente seco e o suor começara a deslizar pelas bochechas dos dois.

- Esse morro está mais para uma montanha. – começou o menino esfregando as faces na manga da camisa.
- Talvez seja uma montanha mesmo. – respondeu Ana Giovanni.

A subida durou mais dez minutos até que chegassem ao ponto original de saída.

- Estávamos aqui, recorda-se?
- Sim, mas é estranho.
- O quê?
- Veja.

O menino apontou na direção do chão. Ana avistou o que chamara a atenção do seu amigo. O chão estava todo marcado de pegadas. Pés alongados do tamanho de pedras gigantes haviam deixado seus rastros. As pegadas eram profundas e mediam quase quinze centímetros de altura. De longe, não eram pegadas humanas.

- Nossa, o que passou por aqui?!
- Não faço idéia, mas não é bom esperarmos para ver.

Naquele instante, um cometa deslizou pelo céu escurecido daquele lugar. Sua passagem terminou em uma explosão de milhares de faíscas. O céu iluminou-se durante três segundos.

Ana e Justus voltaram a olhar para a continuação da trilha. O caminho subia até desembocar em um túnel mal iluminado. Os dois jovens caminharam até sua entrada lentamente. Um vento frio soprou de dentro dele.

- Escuro Ana, não vou passar por ele de forma alguma.
- Deixe de ser medroso Justus!
- Nada disso! Nada disso!
- Ah, o sexo frágil. - Suspirou a menina.

O menino mostrou a língua em sinal de desaprovação.

Ao olharem mais atentamente, Ana Giovanni e Justus perceberam algo escrito por cima da curva de entrada do túnel encrustado na pedra. Eram frases construídas de forma singular, em uma estrofe conjunta. As letras eram rústicas, porém, sua capacidade artística era perceptível. Os traços haviam sido calculados de forma simétrica, como se cada palavra fosse importante.

“Três reis por aqui passaram,
Dois reis quase não ficaram,
O primeiro de febre terminou,
O segundo de dores acabou.
Um apenas reinou
E eternamente por aqui ficou.”


Ana e Justus se entreolharam.

- Que engraçado, parece uma rima. – afirmou o menino.
- Mas é uma rima, Justus. Porém, é também uma história.
- Os dois primeiros reis não foram muito sortudos, hã.
- Temos um terceiro rei por aí.
- Mas... bom, onde estamos? – acertou os óculos do pequenino nariz.

Uma forte luz invadiu o cenário como faróis. Uma buzina tocou três vezes quando os meninos voltaram-se ás suas costas. Uma grande carroça equipada com diversas ferramentas e recursos tecnológicos se encontravam em sua base saindo como braços dianteiros e outros, como canos de água circundando todo seu corpo maderil. Uma grande chaminé se dispunha no teto do veículo onde emanava uma forte fumaça cinzenta concomitamente. As rodas, todas de uma madeira escura e mal conservada, interromperam a velocidade de repente.

Um pequenino senhor de quase meio metro de altura trajando roupas um tanto quanto extravagantes pulou de dentro do excêntrico carro e parou diante deles com entusiasmo.

- Olá senhores! Olá moradores do reinado de Pan-Solaris! – um estrondo ouviu-se de dentro da carroça e a chaminé soltou uma nuvem azulada em forma de círculo – Meus caros e respeitáveis cidadãos honoráveis do honorável rei reinante deste belíssimo e caloroso, diga-se de passagem, lar! – a carroça grunhiu como um animal e suas portas abriram-se – Fiquem felizes, sorriam, festejem... – três meninas saíram de dentro por cima de triciclos prateados e começaram a passear em volta de Ana e Justus ao mesmo tempo que balançavam fitas rosas em movimentos graciosos – pois o magnífico circo do trem das doze retornou! – Um estranho urso dançava em cima do capô da carroça vestindo uma gravata azul com bolas amareladas. O desajeitado animal parecia instigado a fazer tal coisa - Somos... – um estalido soou e uma nuvem de papéis coloridos soltaram-se da parte traseira do veículo – O Grande Circo do Olho Verde!

Uma música alegre passou a soar no ambiente.

Ana Giovanni engoliu em seco antes de tentar falar.

Justus ameaçou dizer alguma coisa, mas preferiu olhar para Ana antes de tudo. A menina compartilhava da incerteza do amigo.

O homenzinho ainda estava com os braços erguidos e os pequeninos papéis agora tocavam o chão de forma triste. A música podia ser confundida com uma música francesa dos cabarés antigos. Daqueles tocados em violas rústicas. O urso tossiu antes de sentar-se cansado e cair de sono no carro.

A menina analisou melhor o homem e percebeu que sua roupa era parecida com a roupa de duendes. Daqueles mesmos que conhecia-se em seu mundo.

- Já fomos melhor recepcionados, mestre Mustan Gomes! – a bailarina do meio veio em direção aos três e desceu de seu triciclo reluzente.
- De acordo, linda menina, mas ainda não entendi porque tais nobres cidadãos Panienses-Solarienses não bateram palmas para nós. – continuou Mustan.
- Somos um fracasso! Ninguém gosta de nós, mestre. – uma segunda bailarina chorou juntando-se a primeira dançarina desistida do triciclo.

O urso arrotou e voltou a roncar.

- Não, não, não menininhas, eles não devem ter ouvido direito nossa apresentação. Acho que são esses malditos cometas explodindo a toda hora.
- Acabam com nossa luz, mestre.
- Exato, exato! Nossa luz...

Ana Giovanni deu um passo a frente e estendeu a mão.

- An... Lady Ana. Giovanni. Isso.

Mustan abriu os dois olhos tanto quanto Justus. O urso amestrado acordou e decidiu espiar também.

- Minha nossa! Uma princesa! Vejam minhas meninas, encontramos uma princesa!
- Finalmente, mestre Mustan!
- Viva o vinho! Viva o olho verde! – bradou o pequenino homem.

Ana olhou para o amigo Justus que engasgava com algo e piscou um dos olhos.

- Este é meu fiel escudeiro, Sir Justus.
- Honrado seja conhecê-lo meu cavaleiro. – Mustan fez uma reverência e inclinou-se diante do casal – Será um prazer tê-los conosco.

As bailarinas bateram palminhas e inclinaram-se também.

- Onde? – questionou Ana.
- No maior espetáculo que o reinado de Pan-Solaris irá admirar, minha princesa. O maior de todos.

Justus fechou a cara para Ana antes de falar.

- Princesa Giovanni. Princesa... sei.

Escrito por José Amarante às 2:19 PM // Link este capítulo

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