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Capítulo XXXVII – Para cima e avante
O calor era insuportável.
Ana Giovanni abriu os olhos depois da chama faiscante rodopiar três vezes cintilando em meio a duas labaredas flutuantes. Elas se dissiparam como em um passe de mágica. A menina apertou os olhos ainda lacrimejados por Sumiris. Seja lá o que for que acontecesse em sua vida, era a primeira vez que Ana se deparava com a possibilidade de perder um amigo. A menina loira, de olhos profundos e ar rebelde, parecia ter ajudado de graça a ela e Justus todo esse tempo. Participar tão intensamente da vida de alguém sem ao menos conhecê-los era difícil no mundo de Ana. Um mundo real, onde não havia mágica e a realidade não podia ser distorcida com tanta facilidade por anjos ou demônios.
Justus jazia ao seu lado desacordado ainda pela viagem no portal entre os mundos. Os óculos desalinhados, o rosto sereno, se Ana quisesse, poderia tirar uma foto e zoa-lo por todo o colégio do Sagrado Coração pendurando a bomba no mural de notícias do corredor C. O famigerado corredor onde as piores notícias corriam feito bala. Desde do boletim do último semestre ao aviso de suspensão de algum aluno.
Embora no fundo Ana não fosse disso, uma máquina digital não era uma da coisas mais importantes a se conseguir naquele momento.
- Ela... ela se foi, não é?
Justus sentava-se ajeitando os óculos e olhava perplexo para Ana.
- Sumiris nos salvou, Justus. Ela realmente nos salvou. - Você acha que podemos... – Justus parou por um tempo refletindo – ...fazê-la voltar? - Está louco, menino? - Por que louco? Você abre portais entre mundos desconhecidos e o nosso, fala com animais exóticos, é perseguida pelo capeta e ainda acha que eu estou louco? Claro que não! Se o diabo existe, é óbvio que deus também existe. As aulas de religião da professora Odete do Sagrado Coração nunca lhe ensinaram nada?
Ana estava atenta ao discurso do pequeno amigo.
Justus ajeitou os óculos numa atitude engraçada e continuou.
- Veja bem, pela bíblia, o diabo era um anjo de deus. Aconteceu alguma coisa e deus o mandou para o inferno como traidor ou algo do tipo. Se na nossa realidade o diabo é um personagem presente, deus também deve ser! E somente ele pode ressuscitar Sumiris. Até podemos talvez quem sabe a levarmos para nossa realidade. E tem o lance da venda da Terra. Acho que temos que pedir para ele desistir dessa idéia comercial. - É verdade. Temos que encontrar deus. - Lógico que é verdade, garota! Lembra-se da carta? A tal carta que meteu-nos nisso tudo? - Nessa dimensão longe de casa ou na fuga do Lu? - Os dois!
Ajeitou novamente os óculos que caíam-lhe pelo nariz.
- Deus quer vender o nosso mundo, a nossa dimensão, para o rabudo. Mas não sei porque ele se zangou tanto por nós dois termos descoberto o pacto. - Cláusulas! - Ahn? - Meu tio do Sul é advogado. Ele sempre vive falando de cláusulas. Elas existem para fazer acordos estranhos e complexos. É coisa dos advogados. - Quer dizer que advogados são amigos do diabo? - Bom... - Então se alguém descobrisse do pacto entre eles, talvez... - Talvez o acordo não poderia ser feito! - Isso! - Vamos Justus, temos que procurar pelos outros objetos para que o Artos possa refazer meu pingente. Só assim podemos voltar para casa. - Credo, eu acho que já vi isso em algum lugar.
Justus espirrou e prosseguiu.
- “Você terá que trazer quatro materiais de quatro mundos. O minério real das terríveis terras do fogo, a unha do peixe Nubalú no povoado do mar... a pimenta que só cresce nas florestas selvagens de Itako e uma pena da Coruja Sábia nas planícies da ventania.”
O menino repassou as falas do mestre Artos ditas na Torre da cidade prateada.
Decididos a saírem dali, olharam em volta e avistaram-se em um terreno montanhoso. O calor, percebido logo de cara, era terrivelmente insuportável. O céu era de uma cor púrpura, quase um preto - como a noite. Porém, não havia estrelas e sim, cometas rasgando o escuro a todo momento. Justus contou. De três em três segundos uma grande chuva de meteoritos cintilantes passavam pelo céu daquele novo mundo. Pareciam fogos de artifícios caríssimos coloridos explodindo em linhas faiscantes. Não haviam nuvens. Somente cometas percorrendo a galáxia lá em cima.
Os dois estavam em uma trilha em uma espécie de morro angular. O caminho fazia uma curva logo a frente, atrás, ele desaparecia em um misterioso túnel aberto nas rochas avermelhadas.
- Gente, isso é um vulcão? - Pára garota! Deus me livre estar em um vulcão. - Vamos Justus, pegue essas coisas do chão para podermos andar.
Os meninos desandaram a pegar os objetos espalhados no chão de terra ocasionado pela queda do portal. Os dentes de Nubalú e a semente de Itako jaziam jogadas misturando-se com a terra. No canto mais a esquerda, perto de uma elevação no morro, o livro 16 estava caído aberto como se alguém o estivesse lendo e tivesse ido embora com tédio.
Justus abaixou para pegá-lo e estranhou os rastros no chão.
- A-A-Ana... - O que é? – a menina falava sem dar muita atenção ao garoto. - Veja isso!
Ana viu uma das páginas do livro 16 estava rasgada quando Justus escancarou o objeto na sua cara. Ela abriu os dois olhos com espanto antes de soltar um grito.
- Droga! - Eu achei a mesma coisa. - Estamos f... - Fritos? – Justus interrompeu desabando no chão e segurando o livro no colo. - Não! Totalmente ferrados!
Uma das páginas amareladas havia sido cortada, de fato. Havia aqueles pequeninos pedaços de papel ainda presentes da página sob a moldura colante onde podia ser lido “a’s” e “p’s” aleatórios de palavras desconhecidas, obviamente.
Ana Giovanni abriu a mochila azul que levara desde seu encontro com Marvius na Rosa Fustigante. Naquela bolsa a menina levava tudo que havia vindo recolhendo para levar a Artos.
- O que está fazendo? - Estou procurando alguma coisa. - O que? - Quieto.
Justus bufou e voltou sua atenção para o livro.
- Será que alguém nos encontrou antes de acordamos aqui? - Não, eu estive acordada a todo momento. - Hummm. Será que foi a queda? A gente tem corrido muito nesses últimas horas.
Após quinze minutos, o menino tentou acabar com a dúvida.
- Esse calor está me matando... - Você deveria pegar um corzinha. - Minha mãe disse que sol dá câncer. - Alôôô, protetor solar? - Dãããã. Alôôô, aquecimento global?
A menina respirou.
- Cheiro esquisito. - Não fui eu. - Não tonto, respira.
O menino obedeceu.
- Eca! Não havia reparado... esse lugar tem cheiro de... - É enxofre, antes que você fale qualquer coisa. - Então eu vou rezando até o final daquela trilha para que não estejamos em um vulcão.
Ana deu de ombros e fechou a mochila azul.
- Não achou nada aí que vá nos ajudar, né?
A menina pensou rapidamente antes de responder.
- Por agora? Acho que não.
Os dois jovens pegaram suas coisas e passaram a caminhar pela trilha de terra oposta ao túnel encrustada na rocha. O caminho fazia uma curva até desembocar em uma estrada que descia. O morro não era muito grande, fazendo com que perdessem não mais que vinte minutos caminhando.
Lá embaixo, Ana e Justus viram-se perdidos em uma planície desértica. Não havia nada. Somente terra, areia e pedras. Não era possível avistar o horizonte naquelas condições. E apesar de estar escuro, o calor poderia acabar com os dois caso decidissem caminhar para alguma direção.
Olharam para trás e admiraram a montanha vermelha por qual desceram.
- Seja lá o que o que estamos fazendo nesse mundo, acho que devemos subir a montanha. - Eu odeio montanhas. - É porque você não foi capturado por espécie subaquáticas a um tempo atrás...
O menino não entendeu, mas correu em direção a Ana Giovanni que ia mais a frente já subindo a trilha novamente.
Escrito por José Amarante às 1:02 PM // Link este capítulo
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