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Capítulo XXXIV - Boleadeira

A paisagem que passava perante os olhos de Ana Giovanni era impressionante. Quando se passa muito tempo a ver o branco, percebe-se a diferença entre tons. Os inuits, por exemplo, esquimós do Ártico, conseguem diferenciar 11 tonalidades de branco.

- É oxigênio congelado – balbuciou Lagartixa, a formiga que pilotava a moto Marley, sempre sorridente e veloz.

Ana Giovanni estava encantada. Entre a paisagem branca, arco-íris de bordas douradas, purpurinados por brilhos intensos que cortavam o céu.

- Estamos quase lá – gritava Lagartixa, sua voz desaparecendo com o ruído da moto alucinada.

Skiter tremia igual vara verde. Parecia que ele estava doente. O demônio não dissera uma palavra sequer, nem mesmo quando a moto entrou dentro do rio, divertindo Ana como se fosse um jet ski. Quando o veículo atingiu terra firme, a moto roncou, deixando para trás um risco de pneus.

- Lagartixa, certo? – perguntara Ana Giovanni.
- Sim – a formiga respondeu.
- Eu sou Ana Giovanni. Você sabe para onde estamos indo?
- Não. A Marley vai nos dizer.
- Como assim?

De repente um barulho de motor engasgado e um baque fez com que a física levasse o corpo de Ana Giovanni e Skiter para frente. Uma boleadeira, feita de pedras arredondadas amarradas entre si por cordas foi lançada. Girou e girou sobre si de encontro com as rodas da moto. Um som de buzina surgiu logo em seguida. Quando Ana percebeu, estava atrás dos chifres de Skiter. Lagartixa, entretanto empinou a moto com todo seu reggae power.

Uma gargalhada ecoou pela Floresta de Itako. Lagartixa acelerou as duas rodas da frente. Um leve farfalhar surgiu nas matas. Um sorriso verde brotou no ar.

- Quem ousa estragar o verde com essas rodas de borracha? – a voz se materializou mostrando os cabelos vermelhos do Curupira.

Lagartixa acelerou as duas rodas traseiras de sua Marley, abrindo um buraco no chão de terra. Foi seu erro.

A ira do Curupira subiu por suas ventas. Ele parecia uma Maria Fumaça com raiva. Soltou uma gargalhada e sapateou com seus pés virados para trás. Quando Ana percebeu, o Curupira havia retirado de sua cabeleira vermelha um estilingue.

- Foi com um estilingue que Davi matou Golias – sussurrara Skiter para a menina.

Ana Giovanni só conseguiu gritar NÃO! quando a arma de arremesso já tinha cortado a cabeça da formiga. O corpo cambaleou para trás e a moto afundou terra abaixo.

O Curupira assobiou e pulou mata adentro.

Ana Giovanni ficou sem fôlego. Seu coração acelerou mais ainda quando ela viu surgir da mata um ponto vermelho que ela conhecia muito bem.

Justus vinha ajeitando seus óculos, seguido de Sumiris.

Ana Giovanni agarrou seu melhor amigo e o levantou.

- Justus! Você está vivo!
- Se você me apertar mais posso morrer sufocado.

Ana Giovanni abraçou Sumiris.

- Sumiris, obrigada por tomar conta dele.

Sumiris ia dar uma resposta mal-criada, mas seu pensamento foi invadido por uma outra esquisitice.

- Mas que coisa é aquela?

Do chão da terra de Itako, milhares de formigas vermelhas e verdes traziam o corpo de Lagartixa, a formiga maior. As pequenas formigas vermelhas e verdes colocaram folhinhas de louro sobre o corpo imóvel. Juntas, elas subiram pelo corpo e em um barulho uníssono, explodiram no ar.

Ana, Skiter, Sumiris e Justus abaixaram suas cabeças por instinto, tampando seus ouvidos. Quando eles perceberam, o corpo imóvel havia ganhado uma nova cabeça com dradis novinhos.

- Liberdade para dentro da cabeça! – disse Lagartixa.
A bolsa azul de Ana roncou, dizendo:

- Eu disse: corta-se um pedaço, mas ela sempre retorna.

- Curupiras não sabem de nada – disse a formiga Lagartixa – Eu sou uma guia ultramundial de achados e perdidos.

Escrito por Jinny Vendingo às 9:44 AM // Link este capítulo

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