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capítulo XXXIII - Ana, a bolsa e Skiter
Ana Giovanni tinha bolhas no dedo mindinho do pé. Skiter parecia não se incomodar com a caminhada entre os arbustos tropicais, mas a passagem para um ser humano se fechava a cada passo que a menina dava.
- Ana Giovanni precisa de serviço de Skiter? Skiter pronto a servir servir até morrer para um demais. - Eu preciso de água quente para os pés. - Ok, ok, Skiter faz água. Mas se água brotar, o mundo balançará. - Não! Pode deixar. Deixa eu só sentar.
Ana Giovanni colocou a bolsa azul que havia ganhado do capitão Marvius no colo.
Quem sabe ali dentro não teria um biscoitinho esquecido? Será que em outros mundos as pessoas comiam coisas gostosas?
Skiter a acompanhou. O desengonçado demônio entretanto sentou de cabeça para baixo, fincando os chifres no terreno sólido de Itako.
- Geofania mágica. Boa para as protuberâncias – ele disse.
Ana Giovanni deu de ombros. Sua mãe a mataria com certeza se a visse sentar no chão com o uniforme da escola, mas ela estava cansada demais para procurar uma pedra lisinha.
Das profundezas da imensidão azul a bolsa roncou. Ana Giovanni pensou que fosse uma ilusão de ótica vinda da floresta encantada, mas o segundo ronco foi tão escandaloso que Skiter retirou os chifres da terra, irritado:
- Ana Giovanni, responda logo essa bolsa azul porque dói os chifres de Skiter! - Responder? Como assim? - Ana Giovanni deve gritar com ela. Essas bolsas estúpidas só ouvem os demais se eles arrebentarem a goela.
Ana Giovanni ia retrucar, mas o demônio hibernou terra adentro.
A menina se sentiu meio idiota por fazer aquilo, mas quando viu sua língua fazia um som dentro da bolsa, emitindo sílabas humanas:
- Olá! Alguém aí?
Incrivelmente, um eco brotou vindo da bolsa.
- É claro que sim. Sempre tem alguém em algum lugar – a bolsa respondeu.
- Uau, incrível! – Ana Giovanni disse. Tenho direito a quantos desejos? - Um mais um. - Dois? - Não, zero. Você nunca estudou, não? - Zero? - Zero é um nada que é tudo. Zeuero. - Então eu tenho direito a tudo?
A bolsa sacolejou.
- Ai, meninas são sempre as mais exigentes. A humanidade ainda precisando de orientação. Mas o que aconteceram com as Encarnações das Inteligências? - Ahn, bem... - Será você? - Sim – falou Skiter, a voz saindo da terra - Eu já disse para ela que ela é Fey. - Hum – retrucou a bolsa para Skiter - Você não é um idiota! No sentido grego, você sabe, aquele que tem idéias próprias. Bem, no padrão demais, você sabe, como deveria ser prescrito. - Olha aqui, dona Bolsa, eu não te chamei pa... - Mas que demais nefelibata! – inadagou a bolsa.
Ana Giovanni levantou a sobrancelha.
- Que anda nas nuvens. Argh, eu aqui querendo dar uma de Pequeno Príncipe para você entender e você...
Ana Giovanni já estava se levantando quando a bolsa roncou.
- Tudo bem, demais. O ciclo já começou mesmo. A revelação da verdade abalará o mundo. Você sabe do que estou falando, certo? Só o intérprete que ensinará aos poucos escolhidos o significado interior da revelação do mensageiro. Bote a mão na minha cabeça, pois pois.
- Cabeça? – Ana Giovanni levantou a outra sobrancelha. - Dentro, demais. Mas que coisas difíceis são as palavras!
Ana colocou sua mão dentro da bolsa. Era como se ela tocasse um grande espaço, o fundo nunca chegava. Ela ficou uns dez minutos tirando coisas de dentro da bolsa.
- Um carrinho de massagem? – sorriu Ana. - Não, querida. Você não terá tempo para esse conforto.
Uma caneta, um fósforo, o começo da tromba de um elefante, um ferro de passar roupa, um barquinho de papel, um guarda-chuva de bolinhas brancas, uma câmera digital sem zoom, um cavalete, um chapéu dobrado, um coração de pelúcia furado, um caqui amassado que sujou a mão de Ana, uma chave de quarto, uma bandeira da Mongólia. A bolsa só dizia “NÃO”. Quando Ana agarrou o vazio, a bolsa se mexeu.
- Um pouco mais para esquerda. Dê espaço entre o dedo anelar e o médio.
Ana se sentiu Dr. Spock.
- Isso, muito bem. Agora em formato de concha. Isso. Feche lentamente a mão. Coloque a mão direita sobre a palma da esquerda.
Ana já estava achando que a bolsa era louquinha da silva.
- Abra a mão.
Uma formiga sorridente de olhos verdes e colar de folhas de manjericão caminhou lentamente pelo seu braço.
- Apresento-te Rainha Lagartixa – disse a bolsa orgulhosa. - Lagartixa? – retrucou Ana – Mas isso é uma formiga! - O nome dela é Lagartixa. Corta-se um pedaço, mas ela sempre retorna.
A formiga exótica começou a cantar. Ana Giovanni sentiu cócegas no braço.
- As vibrações e cantos invocam a força da vida universal. Lagartixa conhece a arte da energia vital – continuou orgulhosa a bolsa.
Um som de bateria veio da bolsa. A formiga tinha uma bela voz:
- Debaixo da pedra de sete cores há uma pimenta encantada. Quem dela primeiro o dedo encosta, a vida será eliminada. Invoco ajuda à demais, invoco a energia vital sagrada. - Energia vital sagrada? – sussurrou Ana para a bolsa. - Abra os olhos e verá – respondeu a bolsa.
Ana Giovanni estava com os olhos abertos. Definitivamente, a bolsa era louca. Mas talvez nem tanto.
Ana Giovanni realmente arregalou os olhos. A bolsa estava certa. A formiga Lagartixa foi inchando, inchando, pesando no braço de Ana. Vendo que traria desconforto para a menina, a formiga saltou para o chão. Quando suas anteninhas tocaram a terra de Itako, a magia explodiu.
Skiter levantou sonolento, alisando os chifres que brilhavam. Faíscas pipocavam pelo ar. A formiga foi crescendo, crescendo até ficar do tamanho de um cachorro poodle.
Ana Giovanni se surpreendeu quando a terra se abriu e dentro dela uma moto tipo Harley Davison surgiu, com bandeiras que lembravam a Jamaica. A moto era repleta de folhas verdinhas, das mais diversas possíveis.
- Liberdade para dentro da cabeça! – a formiga gritou – Subam! Depressa! Os jinns sempre aparecem quando a Marley sai para dar umas voltinhas. Você não quer encontrar seu amigo logo? - Jinns? – Ana Giovanni gritou, pois o barulho do motor da moto tomou conta do silêncio da floresta.
Criaturinhas esvoaçantes começaram a brotar acima da cabeça de Skiter. Ana pulou na garupa da moto, seguida por Skiter.
- Fazem tum tum na cabeça – disse Lagartixa – Adoram picotar um cabelo.
A formiga acelerou mato adentro, cortando qualquer empecilho à frente deles. Sorridente, a moto zunia. Os jinns correram atrás deles por uns 13 km, mas logo viram que por mais que corressem só conseguiam bater com as cabeças nos troncos. A moto cantava pneu, levando consigo um demônio, uma formiga reggae e uma menina de cabelos esvoaçantes que ajeitava em seu colo uma bolsa azul.
Escrito por Jinny Vendingo às 12:57 PM // Link este capítulo
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