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capítulo XXVII – Isso dói.

Quando Justus achava que seu sonho ia durar mais um pouquinho, ouviu a voz de Sumiris sussurrando em seu ouvido. Ou seria dentro de sua cabeça?

- Não se mexa.

Como se ela não tivesse dito nada, ele se mexeu. Uma dor brotou bem no fundo de sua mente e ele parou de se movimentar. Justus não conseguia lembrar onde tinha deixado seus óculos. Estariam eles na casa de Ana Giovanni?

- Você acabou de perder uma memória – sussurrou Sumiris em sua cabeça novamente.

- Você está falando dentro de mim de novo, Sumiris. Isso dói.

- Não se mexa!

Justus estava encostado em uma árvore cinza, preso por um balão de festa transparente. O cordão que unia suas mãos ia direto para a bola de gás, onde imagens nada mais eram do que lembranças há muito esquecidas. Vivas, as imagens rodopiavam dentro da bola de gás, como se fossem reprises da Sessão da Tarde. Em meio a uma árvore branca, Sumiris estava amarrada em seu balão cristalino. Se eles se mexessem ou tentassem fugir, o balão soltava uma lembrança que subia lentamente para o céu, se dissipando da mente depois de latejar profundamente dentro do crânio.

Os galhos das árvores pareciam cochichar. Vários deles iam e viam, fazendo cócegas nos pés dos dois.

Ao redor de seus balões arbustos e sequóias gigantes. Pequenas roseiras contornavam um lago azul e verde que rodava sem parar, como se fosse uma centrífuga bem grande. Apesar das sombras, Justus suava.


- Mas onde estamos? Que calor é esse? – bravejou Justus ajeitando seus óculos vermelhos.

- Devemos estar perto da praia das Ilhas Itako, parte das Terras de Itako.

- Mas e Ana?

- Você se mexeu de novo, garoto burro? Vai perder o cérebro todo assim! Quanto mais você se mexe, mais perde suas lembranças! Você não lembra que foi vendido?

Alfrs são seres elementais. Para se chegar a seu reinado, é necessário percorrer passagens secretas, nove vezes. Se você for sortudo, poderá ver os móveis feitos de cristal. Às vezes esses palácios estão dissimulados no fundo dos lagos. Quando a água está clara, podemos ver as torres das belas construções. Muitos dizem que há dozes moradias para toda a casta de alfrs. Muitos dizem que eles possuem luzes de abeto, lâmpadas que ardem sem parar e fogos que não precisam de fósforo. Todos têm belos rostos. Todos possuem o dom da música e do canto. Todos são justos.

De dentro do lago azul um homem vestido com um manto verde com vincos presos a uma fivela de prata e uma camisa de tricoline amarela, carregava uma espécie de harpa coco. Atrás dele, emergiram do lago, como se tivessem saído de dentro do sol, Mys e Thaler.

O homem jogou a harpa coco no balão de festa de Justus. As lembranças voaram como fotos polaroids que caem no chão. Sumiris cerrou os olhos. As imagens rodopiaram e caíram no lago. O homem tocou o ombro de Justus.

- Vá atrás delas.

Justus caminhou lentamente e entrou com roupa e tudo no lago. Sumiris só viu um ponto vermelho rodopiar rapidamente antes do corpo afundar. Ela se encolheu quando as longas madeixas negras de Mys flutuavam a sua frente.

- Você não pode ler os pensamentos nas Terras de Itako. É estritamente proibido.

Sumiris queria tentar, mas seus pensamentos estavam confusos. Ela pensava em mil possibilidades para fugir, mas as longas madeixas negras a intimidavam.

Thaler se aproximou.

- Você aceita as conseqüências do julgamento, Sumiris Arty?

- Como você sabe meu nome?

O homem havia pego a harpa coco novamente.

- Por favor, não.

Thaler repetiu:

- Você aceita as conseqüências do julgamento, Sumiris Arty?

Sumiris não poderia viver sem as lembranças da Terra. Não conseguiria viver sem lembrar de como era passar a língua entre os dentes quando se come algodão-doce ou quando sua mãe lhe dava um beijo de boa noite, mesmo com o cheiro adocicado do vinho tinto.

O balão de festa, anexo às suas mãos balançava tranqüilamente. Dentro dele, ela assistia ao movimento fílmico de sua vida.

Ela não poderia perder as lembranças.

- Ok - sussurrara Sumiris, balançando negativamente a cabeça.

O homem vestido com o manto verde jogou a harpa coco no balão transparente da menina. As lembranças voaram como fotos polaroids que caem no chão. Sumiris abriu bem os olhos para poder ver sua última festa de aniversário rodopiar acima de sua cabeça e cair no lago. Ela sentiu um arrepio profundo quando o homem tocou em seu ombro.

- Vá atrás delas.

Sumiris chegou perto do lago. Sentou na beira. Pequenas luzes brotavam da água. Um sentimento de paz invadiu a floresta. Fios dourados subiam enquanto fios prateados desciam. Dentro do lago ela viu alfrs verdes, alfrs brancos, alfrs vermelhos e uma lembrança sua perdida caindo lentamente como folha seca sobre um grande palácio de cristal. Sumiris esticou a mão, mas Mys empurrou a cabeça da menina para dentro. Bolhas de ar subiram quando o corpo afundou e os fios dourados e prateados desapareceram entre os sons da floresta encantada.

Por entre as árvores, um assobio de uma canção local percorria o vazio de Itako.

Escrito por Jinny Vendingo às 5:09 PM // Link este capítulo

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