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capítulo XXIV - Eles que se entendam

Um peixe hominídeo de dois metros e meio de altura trajando alguns farrapos possuía o pescoço repleto de correntes douradas entrelaçadas com pequeninas cabeças dependuradas como extravagantes colares. A exótica criatura verde-limão levava a cabeça por debaixo de um chapéu alto e curvilíneo como uma cartola, uma autêntica mistura desastrosa de peixe com humano, no lugar dos olhos duas bolas amarelas saltavam sem pálpebras pela pele escamosa como estivessem receosos de perder alguma cena por alí perto. A boca era uma espécie de rasgo com um tanto de dentes afiados que pareciam preencher toda a mandíbula arroxeada enquanto nas laterais duas guelras estremeciam com a respiração ofegante do monstro. Retirou uma lâmina da cintura e ergueu em direção a Sophia a sua frente.

- Bruxa do mar, o que tem para nós?

Sophia apertou a boca em tom de desaprovação. Ajeitou com delicadeza entre os dedos os anéis que sustentavam duas grandes pedras rubis e olhou em direção a Ana Giovanni.

- Acho que a pergunta deveria ser, o que vocês tem para mim, Grevor.

O grande peixe mirou a menina que levitava de ponta-cabeça e franziu o cenho desconfiado.

- Como conseguiu a menina?
- Isso não importa agora. Mas os seus nubalinos – olhou em direção ás enormes bolsas de couro recheadas com a famosa moeda do mar carregadas por outros Tritões tão grandes quanto Grevor – me parecem satisfatórios.
- Tenho de saber se ela ainda serve.
- Ela está nova em folha, pode conferir.

Grevor andou em direção a Ana Giovanni como estivesse indo conferir se uma galinha ainda respirava. Ou como se fosse uma maçã na dúvida se estava podre. Ela pôde perceber a grotesca forma que ele se movimentava. A cabeça andava em sintonia com a direção dos passos dados, como se todo o peso do corpo daquela incrível criatura fosse tão impossível de controlar naquele tronco desfigurado.

O ser se aproximou um tanto da menina a ponto de Ana sentir sua respiração suja e fedorenta. Se peixes mortos cheiravam tão mal no seu mundo, estas criaturas não passavam muito longe disto. Os olhos do monstro percorreram todo o corpo contorcido como se estivesse a procura de algo. Ana apavorada sentiu-se suar dentro do mar.

- Não a quero!
- Você está louco? É ela! Esta aí, na sua frente. Como o combinado.
- Ela não serve, sua bruxa tola!
- O que há de errado?
- Você zomba de Grevor!
- Impossível, maldito saco de miúdos! – bradou Sophia

A multidão de Tritões que haviam tomado o Pátio Central mexeram-se como se algo dito os incomodasse. Alguns, armados, desembainharam suas lâminas em tom de desaprovação.

Grevor abandonou a vistoria em Ana Giovanni e voou em direção a Sophia com vigor. Parou bem perto de sua face delicada e rosnou mais uma vez.

- Não brinque com Tritões, bruxa traída. Nós somos muito mais que você e sua tribo de homens-peixe fracotes. Primeiro vamos levar a menina, depois iremos acabar com cada casa de areia que você e seus irmãos vivem neste antro de covardes. E por último, talvez, eu leve este seu brinquedinho comigo também. – apontou em direção ao tridente que Sophia carregava.

Sophia ergueu um dedo e fez espaço na água entre sua narina e pegajosa face do Tritão brutamontes.

- Querido, pelo que vejo, você realmente está com vantagem neste momento. Mas será que você teria coragem de acabar com uma mera híbrida do mar de Nubalú apenas por uma menininha sem tanta importância assim? Sua tribo de guerreiros parece muito mais comovida em atear fogo nessa aldeia, não acha?

Grevor prendeu a respiração e soltou-a com um rosnado baixo. Voltou a atenção para um outro Tritão que estava mais afastado. A outra criatura entendeu o olhar de Grevor e andou em sua direção. Virou-se novamente para a grande tribo dos guerreiros aglomerados e gritou algo. Segundos depois, o grupo de Tritões urravam algo.

A mulher-peixe soltou uma risada abafada.

- Viu só? Aposto que queimar cada híbrido seja tão delicioso quanto se rechear de nubalinos, não é capitão Grevor?
- Minha tribo assim decidiu...
- Ótimo.
- ...que será muito melhor despedaçarmos você e darmos de presente para nossos filhotes e fêmeas.
- Mas o que?!
- Juba-lá! Asseon gutarrr! Ielamando já já bakortar! – O monstro apontou na direção de Mientras, Sophia e Ana Giovanni com violência.

Os milhares de Tritões ainda gritavam quando Grevor levantou sua espada. Ainda de costas, sentiu algo queimar sua nuca e rapidamente comprimir suas guelras. Uma pequena lâmina estava em contato com suas escamas ameaçando-o.

- Peça para deixar-nos ir embora, Grevor.

Mientras segurava Grevor por trás, ameaçando-o com um punhal. O Tritão riu e o híbrido ameaçou cortá-lo.

- Agora! Ande!

Grevor manteve-se quieto.

- Nãoooooo! – gritou Sophia

Grevor sentiu o peso do homem-peixe sumir. O punhal caiu lentamente no chão de pedra.

- Mientraaaaaaaaaas! Nãoooooooo!

O rapaz tombou sentindo o arpão furar-lhe as costas e chegar até peito. Tão rapidamente que mal conseguiu desfazer a imagem de Sophia gritando para seu rosto e embuído em dor fechar os olhos. Um Tritão, de um ponto estratégico, rearmava a arma que atingira o híbrido pelas costas.

Ana Giovanni nesse exato momento caiu no chão. A energia que a levitara sumiu. Percebeu que podia falar e se mexer. Estava livre da mágica de Sophia Irvine.

- Feiticeira das profundezas, é sua hora de servir-se aos meus guerreiros! – o Tritão ergueu a espada que empunhava fazendo com que a multidão de Tritões o acompanhassem.

Por uma razão de segundos, três feixes de luz acenderam-se sobre Grevor. O Tritão então sentiu a água a sua volta girar violentamente. Aos poucos, a criatura não conseguiu mais sentir o chão tomado pela força do ciclone que o circundava.

- O quê? O que está fazendo, sua bruxa maldita?!

Grevor manteve-se preso pela pressão da água até que o ciclone cessou. O monstro-peixe caiu novamente no chão.

- HAHAHAHA! Veja, você é fraca demais para derrotar Grevor!

O Tritão levantou com dificuldade e procurou pela espada. Achando-a percebeu que alguns outros Tritões o olhavam desconfiados.

- O que estão olhando? O que estão olhando?

Grevor viu que três luzes ainda giravam a sua volta como pequeninos peixes de luz. Eram coloridos e rodavam bem na altura de sua cabeça esverdeada como se possuíssem vida. O Tritão olhou para a Sophia que se concentrava em repetir baixo alguma canção.

“Menino, menino mau
Que queres comigo para fazer tão mau?
Eu tenho um presente pra você
Mas não perca a cabeça quando perceber”


- Ora sua!

O monstruoso peixe passou a correr em direção a híbrida quando todos no Pátio Central viram algo realmente grande se aproximar da claridade pela água escura. Era bem maior que qualquer outro peixe que Ana Giovanni havia visto nas visitas ao Aquário Municipal da cidade de sua avó. Um tubarão enorme, prata, engoliu Grevor de uma só vez antes que sua espada pudesse descer bem a sua frente sob Sophia e desapareceu do outro lado da escuridão novamente.

Os três peixes de luz sumiram.

A tribo de Tritões passou a correr para cima do palanque do Pátio Central empunhados de ódio. Alguns preparavam seus arco e flecha de diversos pontos, outros estavam prontos para atirarem suas afiadas lanças por cima das colunas de pedra que formavam a grande praça da cidade de híbridos.

Ana Giovanni sentiu alguém puxar seu braço. Uma sombra repetia copiosamente que ela precisava sair dali. A menina correspondeu distanciando-se de Sophia pelas costas do palco do Pátio Central. Antes de descer e fugir, lembrou-se de algo.

- Espere, eu preciso voltar!

A criatura a sua frente levou a mão a cabeça sem entender. Ana correu em direção a Sophia e viu três pequeninos caninos jogados entre penas, pedaços de osso e outras coisas que Grevor deixara cair minutos antes. A menina olhou para o grupo de brutamontes se aproximando, pegou os três objetos e saiu antes que pudesse ver Sophia arremessar uma cintilante bola de fogo de seu tridente em direção aos Tritões.

A criatura a esperava ansiosamente falando consigo mesma.

- Vamos fugir daqui! Isso aqui é muito perigoso!
- Quem é você?

A figura retirou uma linda concha de sua bolsa de couro e ouviu por alguns segundos. Exclamou aliviado e voltou a ouvir a concha. Logo depois ofereceu para Ana ouvir.

- O que você está ouvindo? Ahn? Ahn?
- Você acha realmente que isso é momento para brincar de ouvir conchas?
- Ouça! Ouça!

Ana levou a concha ao ouvido. Uma melodia distante passou a soar. Eram harpas misturadas com flautas, uma melodia doce que dava gosto de ouvir.

- É linda...
- Concentre-se! Concentre-se!

No fundo, um coral podia ser ouvido. Milhões de vozes afinadas em uma só melodia. É como se uma grande orquestra de instrumentos exóticos tocasse para a menina. Ana fechou os olhos antes de ver Sophia ser engolida pela multidão de Tritões no Pátio Central bem perto dali. A menina sentiu o estômago esquentar por um momento e a vista girar. Skiter e Ana Giovanni sumiram numa explosão de pequeninas fagulhas.

Escrito por José Amarante às 2:53 PM // Link este capítulo

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