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capítulo XXIII - A vingança de Sophia

Ana acordou com o ronco do estômago do grande animal que a levava com pressa. Notou que o barulho ora era repentino, ora era estável. Um som acolchoado pela incrível carapaça da Moréia. A menina percebeu com mais precisão o tom azulado da pele do animal. Era uma espécie de azul-esverdeado que se confundia com as diversas saliências que saíam por seu longo corpo. Apesar do corpo serpentio, a cabeça era uma enorme esfera achatada, como uma lança pontiaguda cercada de dentes desgrenhados. Os dois olhos saltavam pela fronte e penduravam-se em verdadeiras antenas.

Do outro lado de Ana, o Peixe-Espada nadava com vontade enquanto os dois seres do mar discutiam algo mais à frente. No lombo do animal jazia um caixote pequeno de madeira preso por um emaranhando de algas do mar. Havia dezenas delas circulando o animal e o caixote.

Stroooooon

O animal roncou mais uma vez e Ana despertou do transe. Agora podia sentir os pés, mãos e até mesmo falar. Brrrrr. Mrrggg. O som não saía. Havia o efeito do chiclete de Marvius encerrado? Ela provavelmente não estaria nem viva caso isso ocorresse. Ela precisava de ar e com uma grande fungada sentiu seu pulmão encher dele.

O nado prosseguiu por alguns minutos até uma clareira surgir após uma grande cratera. O fundo foi surgindo mostrando sua areia muito branca em volta de inúmeros peixes um tanto quanto coloridos. A menina aproveitou o momento em que o grupo inclinou a direção do movimento e tentou se sacudir. As cordas apertaram assim que seu tronco tentou mudar de posição em cima da Moréia.

- Aiii!

Mientras olhou para trás de rabo de olho e avistou a menina se contorcendo.

- Acha que é fácil se desprender de mágica assim?

Ana disparou a língua para fora em sinal de protesto.

Naquele instante, o mar começou a revelar diversas construções em sua superfície profunda. Inúmeras edificações feitas de uma espécie de material poroso, talvez de barro, salientavam-se na escuridão do mar de Nubalú enquanto suas pequenas luzinhas davam um tom mais natural a grande cidade que ia aos poucos mostrando-se.

- Uau! Não é possível! – pensou a menina deslumbrando-se com os habitantes da cidade. Quase todos eram parecidos com Mientras e Sophia. Se Ana nunca havia visto uma Sereia, naquele momento, era possível avistar um grande povoado destes.

- Eu teria muito prazer em vê-los de outra forma.

Os dois seres nem se importaram com a menina enquanto continuavam se preparando para chegar no chão movediço da cidade.

- Mientras!

O ser continuou nadando sem ligar-se para o grande e robusto homem-peixe tão parecido com os dois que qualquer um não duvidaria que fossem da mesma raça o chamara.

- MIENTRAS AQUI! AQUI Ó!

O grupo chegou próximo de uma construção em corais avermelhados e passaram a retirar alguns objetos de cima dos animais gigantes que os acompanhavam sempre. Nesse meio tempo, o homem-peixe que gritara de longe nadava em direção aos dois com uma forte curiosidade estampada no rosto carnudo.

- Não me diga! Vão ficar ricos dessa vez?
- Não nos importune, Serjes.
- Roubaram quantos Tritões dessa vez? Deixa eu adivinhar! Nenhum? – e soltou uma risada grotesca por debaixo da barba loira.
- Cabeça-Esmagada-de-Tritão, não é da sua conta. E largue estes Nubalinos, homem tolo! - Mientras voou em direção aos caixotes alojados ao lado da Moréia antes que Serjes avistasse os cabelos ruivos de Anna por cima da carcaça do animal.

Os olhos do sujeito esbugalharam-se enquanto sua nadadeira inchada tremia rapidamente.

- Vo-vocês conseguiram um... uma... – apontava para a menina absorta pela situação até que sentiu uma forte dor atingir seu braço - AI!

A mão de Serjes fora atingida impiedosamente pelo tridente ofuscante de Sophia.

- Retire sua baba nojenta de cima de nossa mercadoria, Serjes.

O híbrido gorducho tremendo cada vez mais, afastou-se do grupo cerrando os dentes.

- Mientras, está a olhar a vista? Largue de ser idiota e me ajude a levar a menina até o Pátio Central antes que mais um enxerido dessa tribo de imprestáveis nos atrapalhe.

O híbrido rosnou baixo antes de desamarrar a menina e erguê-la pelas costas.

O casal nadou por alguns minutos por dentro de becos e vielas produzidas pelo aglomerado de casinhas de barro da civilização híbrida de homens-peixe. Como autênticos castelotes de areia, aqueles seres viviam dentro de cavernas produzidas pelas correntezas do imenso mar de Nubalú que atravessavam colunas de rocha e areia. Algumas eram feitas propositalmente para isso, mas eram muito mais bem construídas, com detalhes de conchas reluzentes e pedaços de cristais em suas frontes. Talvez isso desse um tom de divisória social naquela pequena comunidade oceânica.

Ana ainda tentava mexer a boca para falar sem sucesso. Tentou mais uma vez por uns instantes até que o rapaz a deixasse tombar no chão.

Huummp!

- Veja Mientras, aprecie nossa glória.

Sophia fechou os olhos e simbilou algumas palavras em direção a Ana Giovanni. Um feixe de luz envolveu seu corpo erguendo a menina aos poucos, levitando bem a altura de sua cintura. Elevou o braço direito e gesticulou. A menina girou ficando de cabeça para baixo na frente de uma multidão de híbridos que se aglomeravam no espaço do Pátio Central da cidade dos homem-peixe.

A multidão urrou em direção aos três com energia.

- Vejam! Nós temos a menina!

Ana olhava para os lados tentando compreender enquanto o grupo de homens-peixe e mulheres-peixe gritavam de alegria enquanto Sophia elaborava algum tipo de feitiço.

- Apreciem o caminho da glória de vocês!
- Sophia! Sophia! Sophia! - esbravejavam
- Mientras?
- Sim, querida?
- Preparado?
- Sempre.

Sophia elevou os braços e passou a concentrar-se novamente. A luz em volta de Ana tornou-se púrpura ao mesmo tempo que um tremendo estrondo ouvira-se bem perto dali. O chão tremia ao compasso de uma sintonia estranha. Os gritos de alegria do povoado de homens-peixe tornara-se gritos de histeria e horror enquanto colunas de pedra que sustentavam algumas construções passaram a ruir. Enquanto muitos nadavam tentando fugir do lugar, Sophia esgueirava um sorriso no canto da boca bem de cima do palanque do Pátio Central.

- Exército de Tritões!
- Nos acharam!
- Fujam!

A mulher-peixe de cabelos vermelho-fogo olhou em direção a menina e piscou.

- Preparada querida? Ah, eu sei que está. Tritões adoram carne de humano.

O barulho começou a aumentar quando o estrondo transformou-se em passos rápidos e compassados. O ritmo frenético de uma marcha ia tomando as ruas laterais do Átrio enquanto alguns homens-peixe esgueiravam-se desesperados para dentro de suas casas de areia.

Mientras apareceu do lado de Sophia no momento que ela empunhava seu tridente e ajeitava o cabelo.

- Não quero um grão de areia desse povoado maldito depois que forem exterminados.
- Sophia, temos que ir. Eles estão chegando...
- Minha vingança não será tão barata assim, querido.

Um raio de luz atingiu a estátua de mármore do Pátio Central esfarelando-a com brutalidade. As faíscas voavam enquanto uma multidão de monstruosos peixes preenchiam o espaço da praça.

Escrito por José Amarante às 7:13 PM // Link este capítulo

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