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capítulo XXII - Mientras e Sophia

O ar entrou pelo nariz de Ana Giovanni com velocidade e chegou em seus pulmões rapidamente. A menina retomou o fôlego enquanto a cobra inteligente rodopiava em direção ao fundo do mar como uma poderosa turbina de Navio. As bolhas saltavam ligeiras bem na cara de Ana Giovanni produzidas pela intensidade do movimento do animal. A visão da menina ia voltando aos poucos, junto de sua percepção.

Nesse exato momento, as bolhas da cobra inteligente cessaram por um momento. Ana apertou a mão em que segurava o rabo do animal e sentiu a água do mar de Nubalú.

O animal sumira antes que Ana pudesse perceber.

A menina flutuava na água escura, gelada, junto da correnteza que subia da escuridão.

- Ótimo, me soltei da cobra por causa de dois pulmões com asma. Ao menos, não é tão ruim estar dentro da água e poder respirar. Se ao menos eu pudesse sentir novamente o gosto do mar...

Um grito sôou na direção de Ana. Era um barulho estranho, agudo e as notas atingiam diretamente o ouvido da menina zunindo suas idéias. Levou as mãos as orelhas e tratou de tapá-las enquanto o som aumentava cada vez mais. Uma mistura de zumbido com uma horripilante sinfonia invadiu o local em que Ana flutava. A água se iluminou a sua frente quando duas estranhas figuras se aproximaram.

- Mientras, como pode? Que tipo de humana invade nossa área?

Uma figura híbrida de longos cabelos avermelhados articulou uma espécie de arma dourada cravejada em jóias na direção de Ana enquanto balançava com delicadeza o longo rabo de peixe bem abaixo em círculos.

- Não entendes, Sophia? A menina veio buscar perigo.

O outro ser era uma espécie de homem. Este não possuía pêlos na face e os olhos ardiam em duas bolas cinzas de um brilho profundo. Segurava o que podia-se dizer de uma pequena harpa. Como aquelas que Ana sempre vira nos vitrais das Igrejas da Terra, seguradas por gorduchos querubins. A última coisa que Ana pôde reparar foi na cicatriz marcante na testa do ser, um sério ferimento antigo provavelmente.

- Perigo?
- Nubalú.
- O mar.
- Nós mandamos.
- O que veio buscar?

Ana tentou nadar na direção oposta, mas um feixe de luz atingiu seu corpo tornando-o imóvel. Os músculos dos braços e pernas ficaram enrijecidos a ponto de não conseguir se mexer de forma alguma.

- Aonde pensa...
- ...que vai?
- Certo Mientras, eu já disse para não terminar o que eu digo!
- Desculpe, querida.
- Eu já disse mil vezes.
- Eu sei, mas é divertido.
- Eu não acho nada divertido.
- É porque...
- Porque o que?
- Você fala demais, querida.
- Como é?
- Desculpe, eu...
- Eu deveria é raspar as escamadas do seu rabo!

A figura feminina voltou-se para a menina e nadou em direção de Ana Giovanni segurando um tridente. Da arma, uma luz avermelhada cintilava em volta do corpo da menina produzindo um estranho ruído. Ana lembrou do barulho produzido pelas cigarras.

- Então, o que uma humana como você faz no mar de Nubalú?

Ana Giovanni viu a face da mulher e mirou as duas íris avermelhadas que brilhavam com nitidez. Até Justus e seus 5.0 de Miopia conseguiriam percebê-las de longe e sem os grandes óculos de grossos aros.

- Não é da sua conta.

A figura imprimiu uma expressão de dúvida e voltou-se para Mientras. O homem metade peixe soltou um risado irônico. Sophia nadou para o meio da conversa e apontou o harpão para Ana enquanto a olhava com rancor. Uma pequena luz amarela passou a iluminar o ambiente. Agora, um som surgia. Era o híbrido, tocava a harpa que trazia. Estava de olhos fechados, parecia compenetrado no que fazia. Uma nota de cada vez, uma melodia intensa começou a ser ouvida. Ana percebeu que Sophia parecia dançar. Era difícil perceber como uma espécie de Sereia, dos contos marítimos, poderia produzir aquilo. O rabo de peixe era uma linda nadadeira avermelhada. Suas escamas cintilavam com a luz produzida pelo tridente.

“Conte-me tudo menininha,
nós viemos te mostrar,
que no Mar de Nubalú,
escapatória não há.”


Ana começou a se sentir sonolenta. Os olhos pesavam.

“Para onde vai com tanta pressa,
deixe-nos encontrar
no fundo de sua mente
porque viestes pra cá.”


Ana Giovanni sentiu-se extremamente sonolenta. Nesse exato momento sua boca se abriu lentamente, de dentro, uma incrível bolha de ar surgia. Cada vez mais, a bolha saltava por seus dentes, língua e lábios em direção a água. Quando estalou para fora, ela era grande, maior que sua cabeça. Flutuava bem na altura dos seres.

- Hmm, o menininho.
- Quem diria?
- Podemos ganhar muitos Nubalinos dessa vez!
- Essa é maior, não?
- Talvez sejam da mesma espécie.
- Será que aquele peixe barrigudo vai nos recompensar dessa vez?
- Não me importo, Mientras. Ninguém em Nubalú passa a perna em Sophia Irvine!

Estalou o dedo na direção do homem.

- Você viu, aquele outro sujeito quase pagou bem pelo garoto.
- Não gostei dele.
- Por que?
- Fala francês demais.
- Por q...

O homem metade peixe gritou antes que pudesse terminar, quando sentiu o tridente espetá-lo na parte inferior de sua nadadeira.

Decidiram ir cuidar da menina que nesse momento não conseguia ter certeza do que estava acontecendo. Um sono atormentava-a cada vez mais. Mientras retirou uma corda roxa do ombro e girou em volta de Ana Giovanni amarrando-a com precisão.

Mientras assoviou. Um urro soou na direção dos três. Uma forte vibração fora sentida quando dois olhos pularam para dentro da luz do tridente de Sophia Irvine. Um Peixe-Espada bem maior que os convencionais parou ao seu lado. Uma Moréia azulada surgiu ao lado de Ana, pondo-a sobre as costas rapidamente e depois cumprimentou Mientras com uma espécie de rosnado.

Subiram em cima dos animais e começaram a nadar na direção escura do mar de Nubalú. A bolha de ar de outrora girava lentamente na água enquanto subia empurrada pela correnteza. Mostrava a cara de Justus que sorria alegremente em alguma ocasião perceptível da visão de Ana Giovanni. Até que explodiu em milhares de outras pequeninas bolhas sumindo lentamente.

Escrito por José Amarante às 2:15 PM // Link este capítulo

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