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capítulo XX - Déjà vu
A brisa que batia do mar de Nubalú era um tanto quanto refrescante. A sensação do vento percorrendo aquela imensidão e sacudindo alegremente os cabelos de Ana fazia com que a mesma risse outra vez. Apesar de toda a situação, estar na Rosa Fustigante depois de ter lutado contra uma criatura metade lagarto e metade cobra de oito metros não lhe dava mais medo e nem lhe causava um mal estar.
No fundo, estava ansiosa.
Marvius ainda estava ao seu lado em cima da cabine olhando para o horizonte. Depois de um breve minuto, voltou-se para ela e abriu um sorriso largo, fazendo o nariz se encontrar com a boca numa expressão de Papai Noel. Agora mais de perto, era possível avistar as estrelinhas presas em seu casaco de capitão. Eram duas estrelas finas de cinco pontas e uma lua minguante prateada. Ambas ficavam tilintando em seu peito quando ocorria algum movimento brusco. Era possível ver um delas quase se soltando da veste. Estava com a costura esgarçada e o broche se dependurava com equilíbrio na lã azul marinho.
- A Rosa Fustigante está doente...
O capitão agora olhava para a madeira detonada pelo Nubalú anteriormente. Os buracos haviam sido tão violentos que Ana calculou com facilidade se dava pra enxergar ou não a parte interior da embarcação. Uma das cobra inteligentes saltou de dentro do buraco para fora girando freneticamente. Ana se assustou com o salto.
Marvius mudou de posição perto do arpão que jazia em uma espécie de pedestal. Chiou um pouco antes de voltar-se para Ana Giovanni.
- Você sabe, vai ter de prosseguir sozinha daqui em diante. – as palavras saíam tremidas, provavelmente o sujeito estava triste. Ou não. A relação para com Ana era só de uma menina corajosa que salvara a vida de um velho comandante. – Acho que você tem força o suficiente para lhe dar com os Tritões. – apertou o olho esquerdo por um momento – e sabe, eles não são lá tão espertos. Tritões não oferecem perigo quando sabem que não estão em uma cilada.
A mente da menina voou em direção a água que rebatia agitada. Aquelas ondas de alguma forma ainda davam medo.
O capitão continuara.
- Você só vai precisar de algumas coisas essenciais. Vem comigo, preciso lhe explicar algumas coisas. O mundo submerso é rasteiro e você é apenas uma menininha que dispara essas coisas brilhantes das mãos. - Na verdade, eu nem sei como consegui... - Ah, claro que não. Não vá se preocupar com isso agora. Você tem um amigo a sua espera em algum lugar desse mar.
Ana imaginou Justus sendo imobilizado por peixes de cinco metros enquanto ele gritava por socorro. Aí ele se borraria todo e ela chegaria heroicamente salvando-o. E depois o sacanearia por tal.
O velho desceu os degraus da escada presa na cabine gemendo. O braço ferido dificultava tudo. O sangue estancava lentamente no corte amordaçado por um pedaço de pano branco. Mesmo que Marvius Tridente estivesse velho, ele sabia se cuidar. Quantos anos esse lobo do mar estava a enfrentar Nubalús? O pior pensamento não demorou muito a chegar no raciocínio de Ana Giovanni.
- E os Nubalús?
O velho tossiu por um momento. Ajeitou o cachimbo no canto de sempre da boca e cuspiu no mar aproximando-se da borda rachada pelas presas do Nubalú.
- Oh, isso não é tão interessante agora!
A menina franziu o cenho. A habitual expressão de indignação.
- Como não? - Não, não, não. Não precisa temer um próximo encontro com uma criatura daquelas. Se existe outro Nubalú próximo de nós, ele ou está dormindo perto dos rochedos de Diaman ou comendo alguns dourado-lilás nas costas de Itako. – abriu um sorriso, daqueles que mostram como se sabem de tudo e adoram isso – Nessa época, eles se preparam para reprodução em locais quentes, isso dá muito trabalho. Entende? Eles se juntam a outros Nubalús tão grandes como eles e começam uma festa de muitas mordidas e sopapos. Talvez alguns deles nem permaneçam vivos no final. Por isso os Nubalús são poucos e raros em suas próprias terras. – retirou do bolso uma espécie de bússola metálica e sacudiu-a na frente do ouvido – Era uma confusão navegar por aqui. - Então posso estar certa que ao entrar na água não me tornarei comida de Nubalú? - Evidentemente. - Absoluta? - Bom...
Aquilo incomodou Ana a ponto de fazê-la se remexer na borda da Rosa Fustigante. O sujeito continuou.
- ...não a ponto de você virar refeição. Mas eu nem sei como esse Nubalú veio parar por essas ondas do mar. Esse território dos Tritões mantém as criaturas longe. Ainda não entendo mesmo...
O velho tragou o fumo com força e disparou a fumaça cinza no ar formando um halo. Logo depois o dissipando com o forte vento.
- Se Nubalús evitam essa área... por que encontramos um? E tão furioso? - Pois é, não tenho idéia. E esse estava um tanto quanto perigoso, não acha? Até nossa tripulação fora arrematada. Pobre Dennis...
Marvius refez a cara de tristeza melancólica de vários momentos atrás. Ficou um tempo apagado em suas emoções até o vermelho vivo retomar sua face e corar-lhe as bochechas. Alguma coisa havia passado iluminando-o por dentro. Voltou-se para Ana Giovanni de repente.
- Você não está sendo caçada, não é?
A boca da menina quase tremeu de susto. Suas pernas ficaram bambas.
- Ah... er... hm... - Pelos braços do polvo! Quem está atrás de você? - Você não iria acreditar. – lembrou que havia dito a mesma coisa para Justus minutos antes de entrar em um esquema sujo envolvendo personalidades bíblicas de seu mundo. - Conte-me, o que mais há de esconder de Marvius Tridente? - Olha capitão, estou em sérios problemas.
A cabeça do sujeito rodou rapidamente.
Ana se sentiu mostrando o boletim para sua mãe após voltar do Salão de Beleza em uma segunda à tarde. O rosto dela se enrugando com força e tornando-se leve, doce e gentil novamente. A mãe de Ana era bondosa demais. Apesar de que às vezes podia jurar que ela havia matado alguém no passado. Aquelas expressões de gente com rabo preso. Ora com raiva, ora com ternura. Como se lembrasse que não podia deixar cair a máscara de boa mãe.
Ou então era tudo da cabeça de Ana, pré-adolescente tem dessas coisas.
- Quem? – prosseguiu o capitão. - Imagine um Nubalú inteligente, com duas pernas, dois braços, exatamente como a gente, mas que realmente existe e que ninguém imagina... - Complicado – Marvius envergou a cara tentando entender. - Ã, como posso explicar? - Alguém muito mau? - Sim. - Alguém como um... - O diabo. - Desculpe? - O demônio... - Não entendi. - Lu. Lúcifer. - Não sei quem é. - É, eu pensei nisso. - Mas você disse algo de demônio... eu sei o que é um demônio. - Sabe?? - Sim. Nubalús são demônios!
Então Ana digeriu.
Estava em outro mundo. Um mundo não tão diferente do seu quanto aos seres, tirando as criaturas que habitavam o gigantesco mar de Nubalú. Mas ainda sim era um mundo diferente. Por mais que deus e diabo fossem parte da história religiosa da Terra e que todas as pessoas, por mais dementes que fossem, saberiam o que eram, ali as maiores lendas eram os Nubalús ou os Tritões. De certo, criaturas tão excêntricas como essas, que habitassem o fundo do mar poderiam se tornar história nas pessoas como Marvius, que vivam na parte de cima da água, navegando em barcos com nomes engraçados e que até poderiam ser suas eternas casas.
E apesar de que ver um Nubalú surgir do mar não seria tão dramático quanto ver o diabo em pessoa andando pela rua e falando francês.
- Bom, deixa pra lá. Não vai fazer tanta diferença. - Deixe-lhe contar então sobre os Tritões.
Marvius foi até a beirada e com destreza passou a puxar um cordão de barbante preso na proa. O barbante então revelou uma garrafa de vidro com água. Ele aproximou a garrafa de Ana.
- Beba. – sua cara era tão lúcida, diferentemente de seu gesto. - Beber? Isso é água do mar! - Sim. - E é salgado!
O capitão abriu um sorriso matreiro. Parecia que estava prestes a contar uma piada muito boa e uma platéia de Nubalús bateriam palmas para ele.
- Não, pode apostar! Experimente.
Ana Giovanni levou a água à boca e provou com desgosto. A água gelada ao tocar seus lábios revelaram um gosto adocicado. Como de balas de groselha.
- É doce! O que você pôs? - Eu? Nada! - Mas é doce! - O que você achava que fosse? Aliás, nem sei de onde você tirou isto. Água salgada? Do mar de Nubalú? Jamais! Eu até já ouvi um rumor de um marujo do Pérola Cinza sobre águas de mar salgadas, mas nunca me dera conta. Talvez ele estivesse falando lá de sua terra. - Impressionante. – Ana experimentou mais um pouco da água. O gosto era realmente doce. – É gostoso. Faz mal beber? - Não, que nada. As águas de Nubalú fazem muito bem. Alguns Elfos das terras de Itako vivem dela. Isso não faria mal a nós, se fizesse aos elfos, não é? Eles são criaturas muito puras. - Elfos? – Ana Giovanni imaginou então um monte de livros de Tolkien sendo materializados. Era um livro gigante e dezenas de seres perfeitos saltavam de dentro dando Oi para ela. Então tudo explodiu quando a voz de Marvius incidiu novamente. - Não seja tola, menininha. Elfos. Você não sabe o que são elfos? Apesar de belos, são terrivelmente maus. Mantenha-se longe deles.
Marvius agora era a professora Inu, de Educação Física do Colégio Sagrado Coração lhe chamando atenção e falando algo que a deixava tonta e com cara de idiota.
- Leve isto aqui também. – retirou um pequenino objeto de um dos grandes bolsos. Mostrou-o e agora dava pra ver mais claramente. Era uma formiga negra, com alguns traços vermelhos em seu abdômen, devia ter uns cinco centímetros e bem maior que as formigas convencionais. Na frente duas serras afiadas estavam calmas e aparentemente dormindo. Ana hesitou pegá-la.
- Vamos, pequenina. Pode pegar, ela está desacordada. - E para que isso vai me servir? - Bom, formigas adoram açúcar. Se precisar de uma mão, use-a na hora certa. - Certo.
Ana enfiou a mão no bolso da saia e retirou uma pequenina caixa de acrílico. Abriu, retirou o aparelho dentário que repousava lá dentro e jogou-o de lado. Aparelho para os dentes será a única coisa que não vou precisar agora., pensou. Enfiou a formiga na caixinha e trancou-a. Voltou a enfiar o recipiente no bolso da saia do Colégio Sagrado Coração.
- Certo. - Tome mais isto.
O capitão estendera um pequenino pedaço de goma. Era rosa e isso fez lhe lembrar de uma espécie de chiclete famoso.
- Mordisque isso quando a hora se aproximar.
“A hora”.
Em todo momento Marvius indicava uma espécie de hora para que iria chegar e Ana Giovanni deveria aproveitá-la. Se precisasse fazer um Elefante caber dentro de um Fusca na hora certa, não teria jeito, era “A hora”. Aproveite a hora, Ana.
- E por último, não menos importante, isto.
Ana Giovanni viu uma bolsa de pano azul sair de dentro de uma das caixas de madeira de Dennis. A bolsa sacudia.
Marvius fez um movimento brusco e enfiou a grande mão peluda dentro. E puxou. Uma cobra inteligente saiu da bolsa agarrando-se ao antebraço do capitão. A cobra começou a girar prendendo-se com vontade. Era uma cobra azul, com lindos riscos prateados em seu corpo viscoso. A serpente não possuía olhos. E isso chamou a atenção de Ana na hora.
- Acalme-se Madalena. Acalme-se!
O sujeito parecia estar lidando com um gato doméstico.
- Tome Ana. – jogou a bolsa azul para a menina. – Vista-a, vai precisar nessa missão. Ela guarda mais coisas que você pode achar! – passou a empurrá-la para a extremidade da Rosa Fustigante – Pronto, vai! - Vai? - É! Pule!
Ana Giovanni sentiu estar na prancha de um barco pirata.
- Como assim? Agora? - É, menina! Ande!
A menina olhou para água. O mar estava confuso e revolto.
Apertou o nariz quando Madalena, a serpente, passou a girar pelo braço do capitão e rodar pelo pescoço. O sujeito estava sem ar. Ele tropeçou em um pedaço da madeira da Rosa Fustigante pelo movimento do animal. Forçou-se a não cair, mas fizera-o antes de tentar. O braço tentando se equilibrar em um dos caixotes, empurrou Ana Giovanni para fora do barco.
A menina despencou no mar revolto de Nubalú. Afundou por uns segundos e voltou a superfície. Avistou o barco se distanciar alguns centímetros de si. Desejou xingar muito o sujeito, mas ele estava comprometido e atrapalhado demais com a cobra-inteligente enroscada em seu pescoço. Nesse momento ela tapava seus olhos com parte do rabo.
- Ana, segure-a!
O capitão Marvius Tridente forçou o animal até ele se desprender por completo. Então por um momento a serpente endireitou-se e ficou estática. Como um pedaço de galho reto. O sujeito então imediatamente jogou em direção a Ana na água.
- Segure!
Ana pegou-a pelo rabo. A cobra estava imóvel ainda.
- Use-a para descer até o Reino dos Tritões.
O barco se distanciava. A voz do capitão ficava cada vez mais impossível de ouvir.
- ...gire ...inteligente ...água...
Ana Giovanni viu a Rosa Fustigante sumir aos poucos no horizonte. O sol já estava na metade do céu quando o barco desapareceu por completo. Encharcada, analisava suas possibilidades dentro do mar de Nubalú. Sozinha. Novamente. Alguma coisa passava por sua cabeça.
Déjà vu.
Escrito por José Amarante às 2:18 PM // Link este capítulo
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