Mande um E-mail
__
Capítulos Anteriores
capítulo XVIII - O ataque do Nubalú gigante
“A casinha da vovó cercadinha de cipó o café ta demorando com certeza não tem pó!”
Shuó. Shuó.
Ana abriu os olhos com dificuldade. Nesse exato momento o pingente terminara de brilhar tão intensamente e já ameaçava apagar rapidamente. O amuleto antes totalmente iluminado voltara a ser uma pedra opaca e rachada preso em um cordão.
A menina sentiu-se boiando. Quando acordou totalmente, tentou não entrar em pânico e perder o ritmo da flutuação. Ergueu a cabeça procurando ver se estava tudo bem consigo mesma. Braços? Confirma. Pernas? Confirma. Apesar de tudo estar bem, seus dedos já estavam totalmente enrugados e pálidos.
Sua atenção voltou-se para o lugar. Estava a deriva em um oceano incrivelmente cristalino. Um sol reinava a pico bem em cima de sua cabeça.
Sozinha.
Justus
Prendeu a respiração antes que soltasse um gemido de angústia. Moveu-se e em vez de ficar deitada, passou a mexer as pernas. Começou a nadar sem rumo.
Ana Giovanni deu três braçadas e parou. O cansaço era gigantesco. Seu corpo parecia estar destruído após a seqüência do portal. Se fosse feita de vidro já seria um grande montante de cacos. Moídos.
PUÓÓÓÓÓÓMMMMMMMMMMMMM
Uma chaminé comia o prateado carvão na fornalha dentro da gigante embarcação que se aproximava. Um buraco de aço extremamente lustroso engolia os minérios a cada movimento do capitão Marvius Tridente. Seu olho esquerdo saltado pelas pálpebras mirou Anna jogada ao mar que tentava ao mesmo chamar-lhe a atenção.
Dennis Pé de Mesa correu pelo barco até o capitão Marvius.
Toc. Toc. Toc.
O barulho era reconhecível. Como se alguém tivesse batendo em uma porta. Ou então, como se alguém possuísse pernas de pau no lugar das pernas humanas.
- Homem ao maaaar!
Capitão Marvius gritou para que Dennis fizesse algo. O mesmo articulou confirmando e desatou a correr pelo barco em busca de algo. Enquanto manejava o leve da Rosa Fustigante, o capitão puxava lentamente a fumaça do cachimbo em sua boca.
- Não é homem, senhor! É uma menina! - Uma menina?! - Sim, capitão! Uma menina! - Mas pelos Tritões Sanguinários, o que uma menina está fazendo jogada ao mar? - Não sei, senhor! Quer que eu pergunte?
O rosto de Marvius comprimiu-se antes de gritar novamente de dentro da cabine para o marinheiro na proa.
- Não, sua anta lunar! É para resgatá-la! - Ok, senhor!
Dennis Pé de Mesa atribulou-se a voar até a extremidade da Rosa Fustigante, abriu um caixote de madeira ao lado e retirou uma serpente vermelha. A cobra ameaçou o rapaz antes dele girá-la pelo rabo e jogar em direção de Ana Giovanni.
A menina antes de começar a nadar na direção oposta com toda a sua força, sentiu a cobra despencar na água. Splash. O medo tomou conta de si. Suas pernas batiam com vontade para longe da embarcação.
- Mas o que diabos ela está fazendo? – Marvius indagou ao avistar a cena – O que você fez de errado, Dennis? - Nada, senhor! A menina parece que não quer ser resgatada! - Você utilizou as técnicas corretas?
Dennis Pé de Mesa desanuviou a expressão em dúvida. Logo após retomou a cara em afirmação de alguém que não tinha dúvida alguma do que havia feito.
- Fiz tudo correto, senhor!
A cobra já estava se aproximando de Ana Giovanni. Em três segundos prendeu-se ao pé da menina. Enroscou-se pela perna até atingir seu tórax. A cobra possuía uns seis metros e isso já dava um tamanho mórbido ao animal. A serpente então endureceu como pedra. A rigidez atingida passou a incomodar Ana Giovanni que gritava.
- Socorro!
O animal então soltou o rabo do enrolado e começou a se esticar em direção a Rosa Fustigante. O marinheiro que esperava ansiosamente pegou o rabo e prendeu-o em uma manivela. Após dar um nó, começou a girar a pele do animal no metal. A cobra aos poucos foi removendo Ana da água.
- Hei, não queria ser salva?
Ana subiu no barco sem entender muito. A cobra soltou-se da menina e entrou novamente na caixa de madeira.
- É, você deve ter uns 12 anos. - Treze. - Nossa, o que uma criança como você faz por aqui? - Estou perdida... – lembrou-se que não podia contar muito do que havia acontecido. Não podia envolver mais ninguém na história entre Deus e o Diabo – Meu amigo e eu nos perdemos em um lago. E de repente ele se transformou em um mar.
O sujeito correu até a borda e procurou.
- Seu amigo? Ele está no mar também? - Eu acho que... - Ele foi comido por um Tritão? – a expressão de Dennis era de uma estranha alegria. - Não! - Ah, que pena! Eu faria de tudo para encontrar um novamente. Sabe, ele me retirou duas coisas que eu mais gostava. – levou a mão à perna direita e bateu contra a prótese de madeira três vezes – Viu? Isso que dá trabalhar no mar de Nubalú. - Você disse... – a menina parecia inquieta – Nubalú? - Sim!
Ana Giovanni recordou da missão que Artos, o grão ferreiro da Cidade da Luz, enviara ela, Justus e Sumiris para reconstruir o poder do pingente e poderem finalmente regressar para casa na Terra. Nubalú seria as terras do povoado do mar, um Mundo paralelo aos incontáveis existentes.
- Você pode me dizer como chego em Nubalú?
O capitão Marvius Tridente abriu a porta da cabine de comando da Rosa Fustigante e andou em direção aos dois.
- Quem quer chegar em Nubalú? – puxou com força o cachimbo e soltou-o pelo canto da boca. - Eu.
Ana Giovanni sentiu o peso do ar lhe tomar.
- Você é louca ou o quê? - Por que? - Você conhece por acaso o povoado do Mar? - Não, mas...
O capitão riu.
- Eles te comeriam assada no espeto de seus ferrões!
A frase de Marvius fez gelar a espinha de Ana.
- Espetos? – a menina estava desconcertada.
O marujo ao lado do capitão deu uma risadinha.
- Menina, o povoado do mar de Nubalú não é nada amigável com estranhos. - Sim, com estranhos! – continuou Dennis quase imitando o capitão ao seu lado. - Se há algo que eles gostam de receber em seus domínios é carne fresca, cheirando a sangue e com essas fitinhas rosas nos cabelos.
Ana não estava de fitinhas rosas no cabelo, mas captou a ironia com precisão.
- É, essas fitinhas! – o marinheiro mais uma vez completou. - São criaturas horrendas, feitas de escamas duras, com grossos corpos de peixe, são do tamanho de Quimeras, mas não tão pequenas como anões da montanha... - Da montanha! -...seus olhos queimam como fogo e de suas bocas saltam poderosas presas. Gigantescas presas! - Gigantescas presas! - Seus rabos possuem nadadeiras alongadas e afiadas, prontas para cortar a cabeça de qualquer ser estúpido! - Estúpido! - E o barulho que um Nubalú faz é tão assustador quanto qualquer som que você já ouvira!
Então Ana Giovanni, Dennis Pé de Mesa e o capitão Marvius Tridente escutaram o que talvez fosse tão assustador quanto dissera.
Roaaaaaaaaaaar.
A mistura de um rosnado e um grito animalesco percorreu o vento que batia na Rosa Fustigante balançando-a freneticamente no revolto mar. O barco tremeu para a esquerda, antes que o capitão imobilizado voltasse a falar.
- Pelo amor das carpas de saturno! – e correu em direção a cabine.
Ana Giovanni ouviu mais uma vez o terrível grito soar de algum lugar do mar.
Dessa vez parecia mais alto.
Olhou em direção ao marinheiro estático ainda com a situação.
- O que está acontecendo?
Dennis Pé de Mesa não se movia. O rosto pálido.
- Senhor? – Ana tentou chamar-lhe a atenção – Moço?
O capitão apareceu pelo basculante da cabine.
- Menina, saia daí! - Mas por que? - Porque ele está vindo!
Antes de seu rosto virar-se, uma onda começou a se formar no horizonte. A menina tapou o sol para enxergar melhor. A massa de água vinha na direção da Rosa Fustigante com tamanha pressa.
- Tsunami!
O sujeito na cabine interpelou.
- O quê? - Um tsunami! Uma onda grande! - Não! É um Nubalú mesmo! - Um o que? – Ana fez a mesma expressão de susto quando fora acusada de acima do peso por Justus algumas horas atrás.
A onda estava agora maior. Deveria ter o tamanho de um prédio de cinco andares. Ana pressentiu rapidamente o pior pelo rosto de Marvius. Quando atingisse o barco, tudo seria destruído.
- O que vamos fazer?! – gritou em direção ao atarefado capitão. Este começou a rodar a manivela antes de puxar com vigor a chaminé. A Rosa Fustigante gritou. A tripulação sentiu os motores trabalharem com precisão. - Vamos, pegue o leme dianteiro! Ana assentiu.
- Certo! E agora? - Agora gire para boroeste! - Para o quê? - Ah! Apenas gire!
A menina passou a rodar o controle náutico com velocidade.
- Iaaaaaaa-rrú!
Marvius parecia entusiasmado na cabine de controle da embarcação. Seu cachimbo pendurado no canto da boca barbada queimava intensamente.
A onda se aproximou do barco. Antes de se chocar, as ondas da frente ameaçaram derrubá-lo, mas os motores girando para o sentido contrário fizeram-na escapar do choque. O acumulado de água cortou o caminho da Rosa Fustigante.
- Escapamos! – gritou Ana da proa. - Sim! Menina forte!
Antes que o barco terminasse de girar, um outro grito ouviu-se no mar. A gigantesca onda rompeu no horizonte antes de sumir.
- Prepara-se, menininha!
Ana olhou com dúvida para o capitão.
- Me preparar? Mas o qu...
Um redemoinho formou-se na frente da Rosa Fustigante. O barco passou a girar na correnteza. Nesse exato momento, do meio do círculo d’água uma criatura submergiu. O Nubalú de oito metros de comprimento surgiu na frente do barco gritando. Em seu pescoço alongado, como um animal metade lagarto e metade peixe avistou a menina e o marinheiro como alvo próximo em cima da proa.
O marinheiro não se mexeu quando o Nubalú desceu vorazmente em sua direção. Abriu a boca arreganhando os afiados dentes até engoli-lo por completo.
- Gah!
Ana correu na direção oposta ao bote do gigantesco animal. Um pedaço de madeira da Rosa Fustigante se soltou na mordida.
- Menina, pegue o arpão! Mire o arpão!
Ana Giovanni nem conseguiu prestar atenção quando o Nubalú desceu mais uma vez em investida, agora em sua direção.
- Aonde? - Em cima da cabine de comando! – bravejou pela janela.
O animal ergueu a cabeça mastigando uma rede de pesca.
Antes de Ana correr em direção a escada que dava acesso ao arpão, teve uma idéia. Olhou em direção ao Nubalú que a fitava em seus olhos vermelho vivo. Antes do bicho se preparar para atacar outra vez, a menina correu em direção ao caixote de outrora. O animal voou em sua direção logo após ela abrir a caixa. Quando o Nubalú chegou na proa da Rosa Fustigante um montante de serpentes dispararam em sua direção. Uma cobra vermelha rodeou sua boca, outras dez fizeram o mesmo. A mandíbula do animal se fechou com a pressão ocasionada pelas serpentes. Como uma corda, a boca permaneceu presa.
O capitão Marvius Tridente sentiu uma pontada de felicidade. A menina de treze anos abandonada na água havia dado um jeito de imobilizar o maior animal das terras do povoado do mar. O Nubalú não era só uma lenda, era um ser incrivelmente vivo na sua frente, derrotado por uma garotinha.
- Capitão!
Ana Giovanni gritou. O Nubalú havia erguido seu rabo em forma de foice antes de ir contra a cabine do barco. O rabo quebrou o vidro e atingiu o capitão Marvius Tridente no braço.
- Argh!
O animal se debatia na água balançando a Rosa Fustigante com o peso de seu corpo. Ana tombou quando o barco tremeu para o lado.
O ferrão saiu da cabine e entrou novamente em direção ao peito do capitão. Ana levantou-se com força do chão do barco que virava lentamente em direção a água. Escorregou. Tentou de novo. O barco ameaçava tombar. Mais uma vez tomou força. Não podia desistir. Não dessa vez.
Foi nesse momento que sentiu um calor percorrer seu corpo e atingir suas mãos. Uma descarga elétrica surgiu no ar a sua volta percorrendo seu uniforme do Colégio Sagrado Coração. A eletricidade tentava de alguma forma encontrar seus punhos fechados sem machucar-lhe. Fazia cócegas.
O Nubalú era grande.
Não.
Não, ele não é grande.
Eu posso, eu devo acabar com ele.
Eu posso.
Eu...
Os olhos de Ana Giovanni começaram a brilhar intensamente como uma forte lanterna, até sua íris sumir inteiramente na luz. Suas mãos formigavam. Seu peito batia acelerado. Uma forte ventania passou pelo mar quando Ana sentiu o que deveria fazer como instinto. Levantou seus braços na direção do Nubalú gigante esperando a coisa certa. Uma incrível descarga de energia passou a se concentrar em suas mãos indo pelo ar de encontro ao peixe. A energia partiu num estrondo de seus dedos na direção do animal, a rajada atravessou sua garganta cortando. Um lado do peixe despencou despedaçando-se para a direita, o outro tombou na parte traseira da Rosa Fustigante. O barco rangeu novamente em equilíbrio em meio as ondas.
Ana tombou no chão de joelhos respirando com dificuldade. Seu pingente parou de brilhar despercebido.
O capitão Marvius Tridente de dentro da cabine, com um dos braços sangrando, olhava atônito para a menininha tentando entender.
Escrito por José Amarante às 4:44 PM // Link este capítulo
É proibida a cópia parcial ou total, sem a devida autorização de seus autores registrados.
A cópia não autorizada é crime e consta no Código Penal. a
- Todos os textos são registrados na Biblioteca Nacional -
|