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capítulo XVII - Terra à vista?
A pele de Ana Giovanni começou a queimar. Era uma sensação parecida com o atravessar de portais em seu Mundo feitos naquele dia, mas alí, de um mundo ao outro, o efeito era outro. Quase e praticamente diferente do que já sentira em qualquer situação de sua vida. Quando seu corpo atravessou totalmente o buraco seus cabelos se elevaram estáticos e como se não houvesse gravidade, seus pés se soltaram do chão. Uma névoa azulada surgiu rapidamente encobrindo seu corpo, de Justus e a estranha menina loira, Sumiris Arty. A névoa tinha um cheiro adocicado, parecido com o gosto de balas de morango e inigualavelmente com os engraçados geradores de fumaça que existiam nas festinhas que ia quando tudo era normal em sua vida. As festinhas dos primos Giovanni sempre era um tanto extravagante. O dinheiro da família mostrava isso. A quantidade exorbitante de gastos nunca era demais quando o assunto era promover coquetéis fúteis e reuniões de amigo-secreto.
Nessa época também não existiam portais entre estranhos mundos e a teoria da existência de Deus e Demônio se tornava apenas uma lenda religiosa perpetuada apenas por raros e sobreviventes católicos. Os jovens já não seguiam as historias bíblicas com tanto fervor como seus pais e avós. Aos poucos, a história da presença de um bem e um mau sobrenatural se extinguia. Tudo era muito duvidoso. Até que uma engraçada carta escrita entre Deus e o tal Diabo foi parar em suas mãos. Ana Giovanni acabou sabendo de algo perigoso, de um segredo maior que tudo que havia na Terra. O segredo de um pacto entre o céu e o inferno.
Seus pensamentos voavam com muita velocidade entre uma informação e outra quando sentiu seus pés tocando algo. Os sapatos pretos do uniforme do Colégio Sagrado Coração encharcaram-se. Ana sentiu água entrar por seus calçados e atingir suas meias. Cada vez que sentia que podia andar por uma espécie de piso, a água subia por suas pernas até atingir o joelho. A fumaça começou a se extirpar quando os olhos de Ana Giovanni encontraram os de Justus a sua frente procurando-a. Os óculos do menino estavam molhados, pingando junto de suas roupas.
Uma poderosa chuva caía sobre suas cabeças. Os dois olharam em volta quando a névoa se dissipou totalmente revelando um grande lago. Ana tentou ver mais além, mais o horizonte se perdia entre uma névoa azulada. O lago era um grande cenário aberto circulado, envolto totalmente pela neblina. O céu extremamente pesado caía sobre os dois quando eles entraram em desespero.
- Ana! Precisamos sair daqui!
Olharam em volta uma vez. Outra.
- Cadê a Sumiris? - Eu não sei! - Ela veio conosco, não veio?
O garoto correu até a menina. O pingente dela brilhava.
- Não tenho certeza! - Pra onde vamos? - Vamos tentar seguir pela neblina até chegar em terra firme!
As gotas caíam cada vez mais pelo local, o barulho da água sendo acertada produzia um grande efeito sonoro. Era tão alto que os dois mal podiam se ouvir.
- Para onde? – exclamou Justus tentando compreender. - Para... – o barulho era alto demais - Neblina...
O rapaz acenou com a cabeça recebendo uma afirmação de Ana. Os dois decidiram caminhar por dentro do lago até uma extremidade. Os passos se tornavam difíceis não só pela chuva, mas pelas roupas totalmente ensopadas. Os dois puderam constatar que caminhar dentro da água com sapatos era um tanto quanto difícil.
- Não consigo andar! Meus pés estão pesados! - Calma Justus, precisamos sair daqui rapidamente! Ou vamos pegar uma tremenda gripe e não conseguiremos impedir a venda da Terra!
O menino parou e voltou-se para Ana Giovanni com um olhar indignado.
- O quê? - É isso mesmo! Não podemos deixar que Deus venda a Terra! - Pera aí, você deve estar louca! Isso! Louca! Bateu a cabeça quando desceu por aquele... aquela... aquela coisa! - É um portal, Justus! Não comece! - O que nós temos com os assuntos divinos? Não é da nossa conta!
O ar superior de Justus começou a irritá-la.
- Você vai arregar? Vai voltar pra sua casa depois de tudo? Eu tinha que adivinhar mesmo. Você é um frangote! - Olhe aí senhora-sabe-tudo como você me chama!
A chuva aumentava cada vez mais que Justus e Ana discutiam. A água do lago subia vagarosamente com o poder da tempestade. Relâmpagos passaram a sacudir as nuvens quando um raio cortou bem perto dos dois.
- Você é uma menina mimada! - E você é um cabeça-de-ferro idiota! - Cabeça-de-ferro? – soltou uma gargalhada debochada – se eu não te desse cola no Sagrado Coração dos últimos cinco anos você ainda estaria no Maternal! Estúpida! - Ignorante! - Saco de batata!
Ana Giovanni arregalou os olhos e abriu a boca em espanto.
- Eu não sou gorda!
A menina voou na direção de Justus derrubando-o na água. O garoto se debatia enquanto Ana prendia suas pernas no peito do menino imobilizando-o. Mais uma vez as aulas de capoeira e os intermináveis treinos de um dia serviram para mais uma coisa. Derrotar a superioridade de Justus. Os óculos do rapaz voaram para o lado com a queda e passaram desapercebidos a afundar no lago lentamente. Os dois se debatiam quando a água passou a subir pela cabeça do menino. Por uns instantes, ainda tomada de fúria, Ana sem dar conta viu Justus sumir na escura água. Sua ira ainda era muito grande quando sua consciência se desprendeu da atribulada cena. Seus olhos voaram dali.
Era a escola do Colégio Sagrado Coração nos intensos anos noventa. Um forte sol brilhava fortemente pelas janelas da sala de aula da terceira série. A professora calmamente andava para lá e para cá segurando sua régua de 50 centímetros e portando seu avental lilás. Ana Giovanni estava na aula de português. Em sua carteira, vinte e quatro lápis de cor repousavam. Enfileirados por ordem de tamanho. À sua frente, uma professora de cabelos longos repetia o verbo no pretérito perfeito. Ana Giovanni se concentrou. As palavras eram repetidas em sua mente.
Eu corri, tu correste, ele correu....
Focalizou o lápis metálico azul. O amarelo tremeu. Seus olhos diminuíram e o vermelho caiu da mesa.
- Todos comigo, classe, eu parti, tu partiste, ele partiu.
Ana Giovanni fechou os olhos. O cinza tremeu, mas foi o roxo que ficou em pé. Pairou em frente a seus olhos por dois milésimos, então ela abriu os olhos e ele voou em direção a menina de sua frente.
- Ai, garota! - Me empresta sua borracha, Maria Clara? - Não precisa me machucar com o lápis, Ana. É só pedir. – e virou o rosto naquela expressão detestável que tinha desde que era gente. Aquela cara em volta de um tom ríspido. Quase uma serpente.
Ana enfileirou novamente doze lápis. Precisava de mais concentração. Precisava de vozes em uníssono dessa vez.
- Agora o pretérito mais que perfeito! Eu encontrara, tu encontraras, ele encontrara. – a professora articulava algo.
Ana mudou a tática e piscou várias vezes. Um, dois, três lápis tremeram.
- Vós encontrareis, eles encontraram!
Bum
A fenda abriu-se. Eles encontraram!, dito pela professora pairou no ar. Maria Clara mexendo no cabelo que ficou em suspenso por um longo segundo.
A princípio, Ana Giovanni se encolheu, de susto. Mas depois viu que o lápis branco dançava a sua frente e bem no meio da sala, uma fenda de energia. Um engraçado barulho de caixa de supermercado.
Os lápis intensificaram seus movimentos e agora faziam X e Y perante a fenda. Ana colocou seu dedo, as moléculas de seu corpo vibraram. Mesmo assim, por ser um ser humano nato da espécie, avançou. A voz de seu tio penetrou em sua lembrança.
A curiosidade enganou o gato e mandou uma gargalhada para os humanos. Seus cabelos foram os primeiros a serem puxados pela força magnética da fenda. Logo em seguida suas mãos e em dois milésimos, seu corpo sumira do espaço da sala enquanto uma luz intensa rasgava o aposento.
A mente de Ana voltou para o lago quando a água já começava a atingir seu nariz. Levantou-se assustada e a água já estava em sua cintura. Olhou em volta procurando por Justus e seus olhos não o encontravam-no. O menino estava submerso. Lembrou-se da briga logo antes, logo quando começou a chover. Uma briga boba, inútil. O que fui fazer? Um sentimento novo, de raiva, lhe havia tomado o corpo e mesmo que Justus Valentino fosse seu melhor amigo, algo lhe incitava a machucá-lo. A derrubá-lo. A afog...
A menina rapidamente tateou o chão do lago procurando enquanto a água da chuva misturava-se ao seu choro, mas suas mãos não alcançavam o fundo antes que o líquido adentrasse por suas vias aéreas. Tomou ar, afundou e nada. Tentou mais umas dez vezes antes de começar a flutuar. A água já havia subido três vezes mais e Ana Giovanni não notara. A chuva torrencial dificultava tudo. Não era possível ver. Não era possível ouvir.
E se ele puder me ouvir?, refletiu.
- Justus! – gritou – Justus!
Apenas o barulho da chuva chocando-se com o lago chegava aos ouvidos de Ana Giovanni. A menina cansada desistiu de nadar até que seus pés pararam por quase vontade própria. Seus braços formigavam e interromperam sua flutuação. Sentiu afundar no lago. O barulho da chuva parecia cada vez mais longe quando a menina fechou os olhos e dormiu no escuro.
O corpo de Ana afundava enquanto sua mente se desprendia mais uma vez com tamanha intensidade. Por um momento lembrou-se de Justus. E lembrou-se de sua mãe também. Isso lhe causou medo. Estava amedrontada, mas surpreendentemente diferente das aulas de Educação Física do Sagrado Coração, estar alí não era tão aterrorizador do que chutar a bola de futebol ou enfrentar a chamada da Professora Inuma Albanez. Inumana, brincou quando ouviu pela primeira vez seu nome. A figura não era nada amigável. Talvez fosse um demônio disfarçado, já que isso era possível.
O pingente que brilhava desde que Ana pisara no lago junto de Justus começou a focalizar uma luz mais forte. Uma aura passou a correr pelo corpo da menina e envolvê-la. Uma espécie de casulo brilhante desmembrava-se por Ana Giovanni. Sem sentir nada, e adormecida, a luz brilhou mais forte até chegar ao ponto de clarear todo o lago. Um feixe de luz saltou do pingente em direção a superfície. A água começou a separar-se onde Ana Giovanni estava. Um redemoinho começou a serpentear a menina criando um espaço arredondado. A água abriu-se girando em círculo enquanto Ana Giovanni pairava flutuando. Seu corpo levitou até a superfície. A água rapidamente engoliu o espaço quando a menina ainda desacordada passou a flutuar novamente no lago. O feixe de luz atingira agora o céu fazendo um rasgo nas nuvens. A chuva cessou aos poucos, até ser interrompida totalmente. Um céu azul abriu-se sobre o lago clareando todo o cenário. A neblina havia sumido. O que Justus e Ana haviam imaginado antes ser um lago, agora era um gigantesco e plácido oceano.
Escrito por José Amarante às 5:55 PM // Link este capítulo
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