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capítulo XVI - Teoria dos jogos

Descer sempre foi mais fácil do que subir, mas no caso da grande torre do mestre Artos era diferente. A cada passo dado, o chão tornava-se mais longe. Ana Giovanni estava na frente de Artos e os dois estavam separados por 5 passos, já que Justus tinha medo de altura.

- Parece que todo mundo conhece meu pai, Justus. Menos eu.
- Igual a mim, Ana.

Um silêncio constrangedor pairou no ar.

- Ana?
- Sim?
- Você acredita em almas?
- Você acha que...
- Será que meu pai foi uma boa pessoa mesmo?
- Sim, Justus. Ele foi.

Os dois chegaram ao chão no mesmo instante, já que Justus venceu o medo e pulou 10 degraus direto para o chão. Na direção dos dois, correndo, vinha Sumiris Arty. A menina loira chegou esbaforida.

- Ué? Você disse que só tinha um caminho! – bravejou Justus.
- Qual é, garoto? Você acha mesmo que não inventaram um elevador aqui?
- Sumiris, você não deveria estar com o mestre Artos? – perguntou Ana.
- Ele me pediu para ir com vocês.

Justus gargalhou.

- Não podemos, Sumiris. Eu nem sei como consegui trazer o Justus para cá, como vou teletransportar 3 pessoas?
- Não posso voltar, Ana. Você sabe, o mestre é meio mão-de-ferro.

Justus puxou Ana para o canto, sussurrou em seu ouvido.

- Você vai mesmo levar essa garota, Ana?
- Justus, ele pode matá-la se ela não for com a gente.
- Não sei, Ana. Ela é estranha.

Sumiris olhava para os dois desconfiada.

- Não sou estranha.

Justus e Ana arregalaram seus olhos. Como ela poderia ter ouvido se eles estavam falando em sussurros, indagaram-se.

- Eu só sei ler pensamentos.

Justus ficou meia-hora testando Sumiris Arty enquanto que albinos na cidade de Jajaboh andavam apressados pelas ruas. Ana Giovanni estudava as possibilidades do teletransporte do livro dezesseis. Tentou se concentrar, mas nada aconteceu. Talvez fosse a risada de Justus que estava lhe atrapalhando. Talvez fossem as respostas rápidas que Sumiris dava para as frases bobas que Justus inventava na cabeça.

- Trakinas de marshmallow – respondeu Sumiris - Mas o que é isso?
- Um biscoito. Não acredito que você não conheceu Trakinas!

Não adianta, pensou Ana. Não conseguia se concentrar. Das outras vezes fora tão mais fácil. Desviou os olhos e avistou ao longe um casal de pessoas. Reparou que não eram albinas. Ana levantou-se. Alguma coisa estava errada.

- Justus, Sumiris.
- Assim não dá para adivinhar, Ana. Não consigo me concentrar.
- Sumiris, além de você, existe alguém que seja diferente aqui?
- Como assim?

Um casal não-albino. Ela vestindo uma saia elegante e uma camisa pólo. Ele um elegante terno estilo italiano, leve, mas com uma gravata branca. Aproximaram-se dos três, mostrando identificações.

- Camille Jordan e Benjamin Boyer. Departamento responsável pelo tráfico de passagens multidimensionais tecnocratas.
- TPMT, sorriu Benjamin Boyer.

Ana, Justus e Sumiris não sorriram.

- Queremos fazer algumas perguntas, senhora? – olhando para Ana.
- Eu me chamo Sumiris - disse Sumiris prontamente.
- Benjamin, por favor.

O homem anotava tudo em um bloco eletrônico.

- Ok, senhora Sumiris. Desde quando vocês têm usado o procedimento de Bhaskara?
- Como? - perguntou Justus.

A mulher franziu a testa.

- Multiplique ambos os membros da equação pelo número que vale quatro vezes o coeficiente do quadrado e some a eles um número igual ao quadrado do coeficiente original da incógnita. A solução desejada é a raiz quadrada disso.

Ana deu um sorrisinho de lado.

- Nenhuma?
- Resposta errada, cara amiga de Sumiris.
- Você se dedicou a problemas de geometria plana - disse Boyer.
- A Ana? Ana Giovanni? Desculpa, moço. Mas ela odeia matemática.
- Temos relatos de 3 exercícios praticados pela mente de sua amiga, rapaz, tudo em escalas proporcionais ao efeito Bhaskara.
- Certo - disse Ana - O que é proibido?

Justus observou que Benjamin tinha um revólver parecido com o que vira no laboratório de seu pai.

- Quando o número a estudar é grande, não é prático utilizar o crivo de Erastótenes. Neste caso, recorremos ao processo das divisões sucessivas, sorriu ao fim da frase Camille Jordan.

- E? – disse Ana.
- E precisamos de seu colar para que possamos concluir a equação e comprovar o uso de elementos extraterrenos.
- E se dissermos não? – disse Justus.

Camille Jordan e Benjamin Boyer se entreolharam. Boyer pigarreou e ajeitou sua gravata.

- Há a possibilidade de usarmos a Teoria dos Jogos.
- Então a use! – disse Justus.
- Vocês seriam caçados, sorriu Camille.
- Moça – interrompeu Sumiris – qual a possibilidade de ganharmos?
- Bem – disse Camille Jordan, fazendo um sinal para Benjamin Boyer com os olhos – Você tem que estudar as decisões que são tomadas em um ambiente onde vários jogadores interagem. Você estuda as escolhas de comportamentos quando o custo e benefício de cada opção não é fixo, mas depende, sobretudo da escolha dos outros indivíduos.

O que Camille Jordan não contava era com a habilidade de Sumiris Arty. Ao invés das palavras que estavam sendo expelidas pela boca da moça, Sumiris entendeu seu pensamento.

Iremos prender vocês quando eu terminar minha formidável explicação.


Sumiris Arty precisava agir se quisesse levar Ana Giovanni e Justus para o mundo. Olhou para Justus que estava fixo no agente Boyer.

Justus, me ouve. Só você pode me ouvir. Não faça cara de espantado.


Justus disfarçou ajeitando os óculos.

Você precisa pegar a arma desse cara. Precisamos fugir daqui. Ela quer levar vocês.

Você pode me ouvir também, Sumiris?

Sim.

Uau.


Anda. No três.

Agora?

- Não! – A menina loira gritou, mas já era tarde.

O agente Boyer e Camille Jordan já estavam com mais armas na mão e Justus somente com uma. Ele não sabia para quem apontar. Ana Giovanni e Sumiris Arty estavam tensas.

- Abaixa isso, garoto! – disse Camille Jordan.
- Não vamos com vocês. – respondeu Justus.

Sumiris entrou no pensamento de Ana.

Ana, você precisa abrir o portal. Precisamos sair daqui, eles vão pedir reforços.

Sumiris?

Não olha para mim.

E o Justus?

Eu cuido dele. Abra o portão, eu me agarro a você.

Não sei como abrir.

Rasgue uma página. Concentre-se no nome do lugar.

Que lugar?

O Povoado do Mar.

Os agentes se aproximavam de Justus.

Garoto idiota, pensou Sumiris.

A menina loira adentrou no pensamento de Justus.

Fica parado, garoto idiota.

- Eu não sou idiota! – ele respondeu.
- Quem disse que você é idiota, menino? - retrucou agente Boyer.

Camille Jordan entendeu tudo. Justus havia falado para Sumiris Arty! Ana abriu o livro. O punhal tremeu em sua mão. Imagens pipocavam na lente de Justus. Quando o casal de agentes se virou, Sumiris usou suas técnicas acrobatas e puxou Justus para o buraco que pairava no ar, a frente deles, tremendo. Diversas descargas de energia saltavam do círculo percorrendo o piso de cimento. O teletransporte pelo portal do livro era novidade para Ana Giovanni, mais embaçado. Fazia cócegas enquanto desintegrava os corpos humanos e os sugava. Quando atingiram o outro lado do portal, antes do buraco se fechar, Boyer tocou um pedaço da abertura.

- Povoado do mar, Camille – disse enquanto que sua identificação desmanchava-se em seu bolso.
- Eles não irão muito longe, querido – ela disse – Johnny Nash está a caminho.

Escrito por The unknown human who sold the world às 4:05 PM // Link este capítulo

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