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capítulo XIX - Retomando
Ana Giovanni sentiu o formigar percorrendo seus braços ainda. A tensão pulsava em suas têmporas na medida que o mar de Nubalú se acalmava.
De dentro da cabine da Rosa Fustigante o capitão Marvius Tridente pressionando um dos membros ferido.
- Menina! Menininha! – sua atenção voltou-se para a jovem ainda deturpada pelo choque – Eu sei que não é fácil enfrentar um bicho desses, mas minhas nossa, você foi formidável!
Ana ergue-se com a ajuda do homem e espremeu a saia do uniforme do Colégio Sagrado Coração com dificuldade, seu pulso direito doía um tanto.
- Fui eu... Fui eu que fiz aquilo? – seus olhos ardiam – Pareceu cena de filme. Você sabe, toda aquela luz, o estrondo... - Pareceu o que do que?
O capitão Marvius havia ajeitado o cachimbo no canto da boca.
- Cena de filme! – Ana ainda não compreendia onde queria chegar – Quando algo irreal. Quando fadas voam entre as flores ou a Barbie diz que não existe celulite.
O olho esquerdo de Marvius Tridente comprimiu-se.
- Garotinho, quem é você?
Um medo silencioso percorreu sua espinha.
- Ana Giovanni, prazer! – estendeu uma das mãos esperando a reação do capitão a sua frente. O sujeito fitou-a com interrogação e voltou a olhar sua mão. - O que fazes? - É um cumprimento! Da onde eu vim, cumprimentamos novos amigos dessa forma. Vamos, apresse-se, levante seu braço oposto ao meu – o braço ferido pelo Nubalú era o mesmo e, Ana adiantou-se a inverter os membros – Agora aperte minha mão e balance assim.
O capitão Marvius riu.
- Que jeito engraçado de vocês se saudarem. Aqui nas Terras de Nubalú costumamos a caçar Mariscos Gigantes. O único problema é quando eles insistem em arremessar suas farpas venenosas. Aí minha pequenina, não há Tentalicius, nem Nubalús que suportem seu ataque.
- Credo.
Ana sentiu o mesmo quando Marvius terminou.
Os olhos percorreram a embarcação. A madeira do lado dianteiro havia rachado com a pressão com que o feroz animal havia investido. O barco era forte, do porte de uma Traineira comum ou um barco de vela de porte médio, não tão grande, nem tão pequeno. Ana não vira velas ou algum outro tipo de motor. Sabia que existia alguma fornalha queimando por causa da chaminé que saltava de dentro da cabine, pelo lado esquerdo.
As redes, provavelmente de pesca, últimas que sobraram ainda rasgadas, jaziam derrubadas inteiramente sobre os diversos caixotes de madeira. Uma placa alertava na frente, Frágil. Talvez fossem as “cobras inteligentes” do Marujo Dennis Pé de Mesa. As serpentes haviam salvado a vida de Ana Giovanni diversas vezes desde que pisara na Rosa Fustigante, fazendo com que a mesma aos poucos mudasse de idéia quanto a sua periculosidade.
Foi impossível não lembrar do que havia acontecido com o marinheiro. Os restos da criatura marinha que o engolira descansava debaixo do sol ardente sobre a parte traseira da cabine.
- Pobre Dennis, era um tanto quanto maníaco por Nubalús, mas prestativo e atencioso quanto aos serviços da Rosa. Seu galope atropelado na madeira forte deste barco vai fazer falta. Acho que deveríamos fazer uma homenagem ao pobre manco. Sabe, o sujeito não tinha família...
O homem pôs uma perna na borda e levou a mão ao peito. Então começou a cantar.
"Da Rosa Fustigante seu galope eu ouvia a todo momento belo dia um Nubalú veio e acabou comendo-o."
O Capitão voltou ao centro e os dois se aproximaram do cadáver partido em dois. A boca do Nubalú ainda mostrava suas afiadas presas arreganhadas. Deviam ter uns quinze centímetros cada, calculou Ana. Uma fileira se estendia do canino superior até os restantes.
Entre um e outro, avistaram uma perna de pau.
- Pelas barbas de um camarão azul! É uma das pernas de Dennis!
Ana mirou o capitão dar um chute violento no Nubalú morto. O impacto fez com que o pedaço da direita do animal escorregasse pela madeira em direção a água. O pedaço então puxou o esquerdo até que o corpo afundasse no mar.
- Não! – gritou Ana. - O quê? - Eu precisava de um dente do Nubalú!
O capitão franziu o cenho.
- Um dente do Nubalú? Mas por que?
Ana agarrou o pingente com as duas mãos. Estava quente.
- Para recuperar o poder do meu pingente. Somente com ele posso abrir portais entre os Mundos e voltar para casa! - Um pedaço dos dentes de Nubalú? Que raio mandou você atrás disso? E sozinha ainda por cima! - Não, eu vim com meu amigo, o Justus. Mas nós brigamos logo quando chegamos, estava chovendo muito, estávamos cansados...
Marvius sentiu a tristeza tomar conta da menina.
- Então ele se afogou, certo? - Sim, como sabe?
O capitão soltou uma gargalhada aliviada.
- Seu amigo não se afogou não. - Não? - Não. - Mas então... - Ele foi raptado!
Ana Giovanni espantou-se.
- Raptado? Por quem? - Por um Tritão, provavelmente. - Um Tritão! - Sim, um Tritão! - Eles são maus? – a menina torceu mais uma vez o lado oposto da saia.
Marvius e Ana decidiram se sentar em um dos caixotes para a conversa. Antes de se colocarem, revistaram-no para evitar qualquer tipo de surpresa com “cobras inteligentes” do Marujo Dennis.
- Depende. Se você puser um pouco de sal em sua nadadeira com certeza ele não vai ficar muito alegre. - Eles são suscetíveis a sal? - Demais! - E como arranjo sal? - Você não acha que vai ao encontro deles carregando sal, não é? - Ora, e por que?
Marvius se levantou novamente, agora pediu a ajuda de Ana Giovanni. Os dois caminharam pela Rosa até o arpão situado em cima da cabine de comando. A vista era majestosa. Dava-se pra ver o horizonte se perdendo na água do Oceano de Nubalú. O mar estava calmo, o sol ainda rachava.
- Vê?
Ana olhou em volta. Apenas água.
- Não vejo nada. - Claro! Você está olhando para a direção errada!
Marvius retirou uma bolsa de couro verde de um dos bolsos da jaqueta de capitão que carregava. Depositou na mão de Ana.
- Vai precisar para carregar algumas coisas. - Você quer dizer... - Sim!
O povado do mar...
- ...aonde mais você acharia que eles moram?
Ana Giovanni então voltou sua atenção para o mar a sua volta. Um grande oceano que não dava a verdadeira dimensão do tamanho à sua imaginação se estendia varrendo a terra. Debaixo daquelas fortes ondas onde o vento vindo do Leste agitava com vontade, debaixo das águas cristalinas tocadas pelo calor do Sol acima de tudo, havia um grande Reino perdido. Submerso. Se Ana estava sozinha ou não, sentiu o que deveria fazer de verdade. Sua missão naquele momento era salvar Justus. Fosse, aonde fosse.
Até o inferno, se preciso.
Mas ela mal sabia do que aconteceria horas depois.
Escrito por José Amarante às 12:32 PM // Link este capítulo
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