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capítulo XIV - Roubo na Cidade do Tempo
Ana Giovanni e Justus estavam à frente do portão da Cidade do Tempo quando o Barco-Luz levantou-se em suas grandes hélices, ainda espalhando a areia verde do deserto. Os dois tentaram se proteger da ventania que o veículo formava até que ele brilhou por dois segundos e desapareceu no ar.
A atenção de ambos voltou-se para as gigantes muralhas que permeavam Jajaboh. Ana Giovanni sentiu um calafrio quando se lembrou dos muros do Colégio Sagrado Coração. Se ao menos o pingente de seu pai estivesse intacto e funcionando, adentrar a Cidade do Tempo seria fácil. Justus caminhou até o portão pelas dunas de areia. Ao aproximar-se, percebeu que o portão era cinco vezes maior que os muros da escola. As muralhas eram feitas de pedra, o portão prateado em um vistoso metal. Não existia nenhum tipo de comunicação com a parte interior do lugar. Pensaram como era possível que alguém pudesse avisar que queria entrar se não havia ninguém para vigiar o lado de fora.
- Ana, veja. Tem alguma coisa escrita aqui.
Ana Giovanni se aproximou e arregalou os olhos em espanto. Justus, atrás dos estranhos óculos vermelhos, tentava ler algo, mas suas lentes estavam embaçadas demais. A menina levou o dedo indicador até a frase esculpida no metal prateado e passou a ler com cuidado.
“Por lei número um, ponto dois, ponto cinco do Código Real e Universal da Cidade do Tempo, declaro que, para qualquer cidadão Jajaboh que quiser adentrar as ruas de nossa civilização, não abra se quiser entrar”
Justus ajeitou os óculos em cima do nariz.
- Isso está me deixando confuso. - Claro Justus, seu pai é um anjo, Deus sumiu com meu pai e tem uma figura das escrituras bíblicas atrás de nós. O que seria mais confuso que uma senha da Cidade do Tempo na sua casa?
O menino franziu o cenho para Ana Giovanni em tom de desaprovação. Não gostava quando ela tomava o ar debochado das meninas de sua idade. Apesar de ser diferente e sua melhor amiga, Ana ainda era uma menina irritante na maioria das vezes.
- Ótimo, abra o portão, senhora-sabe-tudo!
Ana Giovanni riu para o garoto e aproximou-se do portão.
- A senha que você achou nunca foi para o laboratório secreto, Justus.
Andou mais dois metros em direção oposta ao portão.
- Seu pai sabia o que estava fazendo quando deixou que você a achasse.
Parou um pouco distante e continuou.
- Se não quisermos entrar, para que abrir? Nós não queremos entrar!
Justus virou-se para o portão quando algo se ouviu. Uma espécie de trinco começou a tilintar do lado de dentro. Logo após o som de corrente raspando em metal passou a soar. O portão de prata da Cidade do Tempo abriu-se lentamente em dois.
Ana e Justus miraram um pátio de cimento do lado de dentro, rodeado por diferentes árvores vistosas, mangueiras, coqueiros e macieiras dentro de um jardim circular. O espaço estava vazio. À direita, uma caixa de correios estava posicionada de frente para o portão. Do outro lado, duas placas repousavam perto de uma cerejeira.
Intrigados apressaram-se a entrar.
- Justus... - Eu sei! Eu sei! Olha aquelas frutas! – O rapaz passou a correr em direção ao jardim, pulou pelo canteiro até agarrar-se em uma mangueira. Sacudiu um galho até que o fruto despencou lá de cima à sua frente. - Não era bem sobre isso que eu iria falar.
Ana Giovanni bufou em direção a caixa de correios.
- Vejamos, não sabia que existia um sistema de Correio parecido com o nosso em outros Mundos.
Justus mastigou um pedaço da Manga sujando toda a face. Estava feliz, parecia não lembrar-se das coisas ruins que haviam acontecido. Mordiscou mais um pedaço e encheu a boca de fiapos.
Ana analisou a caixa de correios quando o portão começou a se juntar, fechando-se. A menina correu em sua direção, mas já era tarde. Estavam presos. Decidiu voltar sua atenção para a caixa de correios. Era uma espécie de caixa prateada com um buraco bem fino no meio, dignamente parecido com caixas de correio comum. Um buraco para se enfiar a carta e pronto.
A menina rodeou o poste até avistar aquilo que imaginara. Um buraco para se retirar o papel depositado. Devidamente lacrado por uma fechadura.
- Ai, droga. Está trancado. Justus, o que eu faço? - Calma Ana – gritou – deixa que eu uso a minha caixa de ferramentas de arrombar caixa de correio que sempre levo para Cidades do Tempo.
Ana Giovanni riu antes de forçar a tampa. Cedeu.
- Guarde-a! Não vamos precisar dela!
O menino jogou a casca da fruta que comera no gramado do jardim até se aproximar de Ana Giovanni.
- Abre aí! Vamos ver o que os Jajaboh escrevem!
Dentro da caixa de correios, apenas um pedaço de papel jogado. A menina retirou e abriu-o. Tentou ler, mas a única coisa escrita eram números. Números seguidos, uma seqüência.
2-3-2-1
- Os Jajaboh devem ser estranhos. – bradou o menino. - Bom, vamos ver o que diz a placa.
Do outro lado duas placas apontavam em direções opostas.
“Cidade do Tempo para o Norte”
“Deserto das Quimeras para o Sul”
Justus soltou um gemido quando Ana parou de ler.
- Ainda bem que não encontramos nenhuma Quimera por lá. - Bom, para lá devemos chegar dentro da cidade. Vamos.
Os dois caminharam para uma portinhola atrás do jardim central, logo após o menino correr pelas árvores e roubar duas bananas pondo dentro do casaco do uniforme do Colégio Sagrado Coração. Ana Giovanni avistou a porta e a forçou. Ao abrir, uma voz disparou de dentro.
- Que diabos! Quem ousa me afortunar? É um habitante das terras de Noma de novo? Não damos abrigo político, cachorro! Se for, irei queimá-lo com minha arma!
Ana Giovanni e Justus adentraram em uma espécie de sala de estar. Um iluminado lustre de cristal pendurava do teto repleto de lâmpadas artificiais a gás. Um sofá vermelho e uma mesa de cabeceira acomodavam duas pessoas albinas que liam curiosas uma mesma revista. Do outro lado uma senhora acomodada por trás de um balcão mirava uma escopeta de dois canos para os visitantes. Na mesa, escrito, Portaria.
- Oh, não são de Noma! Mas quem são vocês? - Somos... somos... - Somos cidadãos de... - É... – agitou o menino olhando para Ana – somos... somos...
Ana Giovani parou e por um tempo se concentrou.
- Somos de Pagode!
A velha contornou a expressão em questionamento para os dois. O casal de albinos no sofá retiraram sua atenção da revista para Ana e Justus.
- Pah god’y – adiantou o menino. - Terra distante. - Sim, longe. Muito longe.
A mulher abaixou a arma e encarou-os por uns segundos.
- Senha? - Dois, três, dois, um. – Ana fechou os olhos após Justus falar. - Ah, queridos, sejam bem vindos a Cidade do Tempo!
Uma campainha tocou e uma porta se destrancou na extremidade da sala. A mulher fez um gesto para que ambos prosseguissem. Ana Giovanni puxou as mãos de Justus e os dois sumiram pela porta antes que qualquer um falasse qualquer coisa.
Os dois seguiram por um tapete prateado em um corredor logo após passarem pela portaria. Mais adiante uma outra porta barrava o acesso. Uma placa dizia, “Bem vindos a Cidade do Tempo”. Abriram. A forte luz do sol adentrou o corredor nos olhos de Ana e Justus. Um barulho de sirenes, buzinas e vozes de pessoas era ouvido pelo lugar. Quando a porta se abriu totalmente, uma grande metrópole se revelou adiante. Centenas de pessoas andavam apressadas pra lá e pra cá. Todas albinas. Cabelos, sobrancelhas, pele. Sem cor. Os olhos vermelhos e os pêlos esbranquiçados. Usavam roupas prateadas, apressados. Uma cidade completa.
A não ser por essas características, a Cidade do Tempo não se diferenciava das cidades comuns de onde Ana e Justus vieram. Não havia rua, nem prédios. O espaço das vias era separado por estranhas edificações circulares, como torres. Inúmeras torres de tamanhos aparentemente iguais iam da esquerda para a direita. Ana se lembrou delas, do momento em que esteve no Barco-Luz.
Mais adiante era possível avistar uma torre gigantesca. Em seu cume havia um relógio descomunal, com longos ponteiros metálicos marcando as horas. Os números eram os mesmos de um relógio convencional. Mas Ana Giovanni nunca havia visto uma fortificação tão grande e majestosa como aquela.
Ana começou a andar quando alguém a esbarrou. Uma figura em volta em um capuz continuou a caminhar para longe deles sem questionar.
- Além de estranhos, são mal educados! - Calma Justus, não vamos perder a cabeça logo agora sozinhos nessa cidade. - O que você acha que devemos fazer? - Vamos perguntar para alguém se conhecem um caminho de volta para nosso Mundo. Ou se conseguimos dar um jeito nesse...
O garoto gritou antes que Ana Giovanni terminasse.
- Seu pingente!
Ana procurou o colar no pescoço. Não encontrara.
- O albino! Ele roubou seu colar! - Droga!
Os dois passaram a procurar pelas ruas de Jajaboh com os olhos. A figura em volta no capuz se distanciava para o outro lado da cidade. Os dois passaram a correr em sua direção. A figura notou a pressa de Ana Giovanni e passou a correr apressadamente também. Percorreu dois metros até virar em uma viela. A calçada de cimento transformou-se em tijolos alaranjados quando os dois viraram também na esquina. A viela se bifurcava em diferentes portas até terminar em um beco.
Vazia.
- E agora? - Ele deve ter entrado em uma dessas portas. São muitas! - Espere, veja.
Justus mirou uma porta entreaberta no final da passagem. Imediatamente correram em sua direção antes que fechasse. Lá dentro, a porta revelou uma escadaria incrustada na pedra, descendo pelo piso até escurecer completamente. Ana e Justus lentamente, sem produzir barulho, fecharam a porta. Um interruptor foi encontrado pelo menino que o acendeu. Um rastro de luzes artificiais se estenderam pela escada abaixo.
- Nossa, parece ser um caminho longo. - Não posso perder meu colar! – a menina sacudiu Justus antes de começar a descer as escadas. - Calma, Ana! Não sabemos o que vamos encon...
A escada seguiu até uma outra sala esculpida em pedra e sem vestígios do ladrão. As luzes da escada se bifurcaram pelo aposento iluminando-o pouco a pouco.
- Por onde aquele maldito gatuno se metera? - Acho impossível que ele tenha vindo por aqui.
Uma voz rompeu pela sala por trás.
- Eu não acho.
Ana Giovanni virou-se rapidamente, na escada, atrás deles, a figura segurava o colar de seu pai no ar.
- Solte isto agora!
A figura riu.
- Acho que não vou ficar com isso. Não é tão bonito como eu imaginara. Nem funciona para nada, a não ser de coleira. Olha, eu não tinha pensando nisso! – a figura entrou na sala e caminhou pela parede circulando Ana e Justus – vejo também que vocês não são daqui. Nem de... como é mesmo? Pagode? Gostei da criatividade de vocês.
Ana deu um passo em sua direção.
- Quem é você? - Revele-se! – Justus acompanhou. - Calma aí vocês dois.
A figura deu uma cambalhota pela parede e três saltos mortais até girar na frente dos dois. Levantou o capuz revelando sua face. Uma menina de cabelos loiros e olhos incrivelmente azul-claros.
- Você não é albina, você não é daqui. – interpelou Justus.
Seus traços eram perfeitos, viris e delicados ao mesmo tempo. Seu corpo esguio se escondia dentro de um uniforme prateado. A capa em suas costas junto do capuz a escondia quando precisasse.
- Me chame de Sumiris Arty.
Ana Giovanni e Justus se entreolharam. A menina estendeu a mão para Ana entregando o pingente.
- Você vai precisar de ajuda com isso aí. - Pode nos ajudar? - Bom, eu não. Mas sei quem pode.
Escrito por José Amarante às 5:37 PM // Link este capítulo
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