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capítulo XIII - O Barco-Luz

Ana Giovanni abriu lentamente os olhos e mirou em volta. A cabeça ainda estalava um pouco, porém os cortes no braço não lhe chamaram a atenção até mexer-se. Juntou as mãos para levantar-se e sentiu o chão quente. Extremamente quente. Esfregou as cansadas pálpebras e olhou. Asfalto. Sua cabeça levantou-se lentamente. Estava jogada em uma rua de um centro urbano aparentemente deserto, sem carros, sem pessoas, sem coisa alguma que lembrasse uma civilização presente. As calçadas possuíam uma iluminação fraca que de segundos em segundo falhava. As sombras se estendiam de lojas à prédios abandonados. Passou as mãos pelos joelhos doloridos e com um pouco de esforço, evantou-se. Um céu cinza escuro cobria sua cabeça relampejando sobre a misteriosa cidade, cinza e deserta. Fantasmagórica, chegou a cogitar. Ana levou as mãos ao colo procurando algo. Estava sem o pingente de seu pai. Um misto de desespero e medo correu por seu corpo.

Foi quando ouviu um estalo.

Uma figura surgiu das sombras da calçada da direita a alguns metros, caminhando para o centro da rua. Ana tentou enxergar quem era, até gritar.

- Justus! Aqui, Justus!

A figura parou. Debaixo das sombras ainda, virou-se e passou a caminhar em sua direção. Sem responder por seu chamado, a menina entendeu a situação. Tropeçando em seus próprios calçados, desandou a correr na direção oposta. Virou o rosto para medir a distância. Ainda estava longe. Quando voltou-se, seus olhos encontraram a figura parada bem a sua frente. Ana Giovanni assustou-se e caiu.

A luz de todos os postes passaram a se apagar lentamente, a rua foi se cobrindo de uma escuridão até deixar Ana totalmente cega. Sua respiração acelerou quando a única coisa que conseguia usar eram as orelhas. Sentiu os passos vindo em sua direção mais uma vez. Então a figura demoníaca dos livros bíblicos que Ana conhecia apareceu na sua frente rapidamente. Uma luz negra saltou de seus olhos e misturou-se a escuridão.

- Ana, você está bem?

Ana Giovanni piscou. Justus estava a seu lado, balançando seus ombros freneticamente. Apesar de detestar que a cutucassem, pela primeira vez na vida estava agradecida por receber aquilo do menino.

- Justus! Justus! Ah, por Deus, Justus!

Ela levantou e abraçou o rapaz. O menino não entendeu nada por cima dos ombros. Os dois voltaram a se olhar, ainda atônitos.

- O que aconteceu Ana? Você está suando.
- Justus! O Lúcifer! Ele... – um grão de areia entrou em sua boca engasgando-a.

Olhou em volta tentando compreender. Viu que a última coisa que poderia chamar onde estava era de centro urbano. Ana Giovanni sentiu areia entre seus dedos. Um sol rachava sobre suas cabeças e iluminava o campo desértico em que estava.

- Do que você está falando?
- Ele estava aqui! Digo, eu não estava. Era uma cidade! Não havia ninguém, porém...
- Porém? – Justus sentou-se ao lado da menina tentando entender.
- Aquela coisa...

Então os últimos acontecimentos voltaram rapidamente não só à mente de Ana, mas como a de Justus. Os olhos do menino estavam inchados e vermelhos.

- Justus, eu não queria... eu não sei o que dizer. Eu também não estou acreditando que tudo isso tenha acontecido conosco. Eu...


O menino passou a olhar para o horizonte, os olhos perdidos.

- Justus...

Ana Giovanni secou uma lágrima que descia pela bochecha avermelhada do menino.

- Prometo pra você que tudo vai dar certo. E eu vou cuidar de você, não importe o que vá me acontecer.
- Acho na verdade que quem deveria cuidar de você era eu, não é mesmo?
- Você uma ova! Você é vinte centímetros mais baixo do que eu. E dois anos mais novo do que eu. Portanto, quem manda agora aqui sou eu. – os dois riram.
- Ana, você acha que meu pai teria coragem?
- Justus, seja lá o que for, quem seja aquela pessoa, é tudo real. Eu nunca pensei que Deus e Diabo existissem. Na verdade nunca pensei que mágica existisse. – a garota sentiu algo debaixo da camisa do uniforme do Colégio Sagrado Coração. Encontrou o pingente e passou a admirá-lo com alívio. Ele não estava brilhando como antes, apenas as cinzas balançavam dentro do pingente como um colar normal – Nem sei se posso chamar isso de mágica. Mas meu pai deve ter tido um motivo muito forte para ter me dado. Talvez ele soubesse que iria precisar disso qualquer dia.

Justus cerrou os olhos ao ver o colar.

- Ana, veja!

Apontou uma rachadura no cristal que jazia sobre o colar de Ana Giovanni. O cristal estava escuro e as cinzas não caíam de dentro mesmo com o buraco aberto no pingente.

- Não acredito! Meu colar quebrou!
- Calma Ana, tente usá-lo. Talvez tenha sido uma rachadura.

A menina levantou da areia, o vento chacoalhou seu cabelo. Concentrou-se.

Nada.

- Droga!
- Essas coisas celestiais deveriam ser mais bem feitas.
- Justus, você não compreende? Estamos no meio de um deserto! Seja lá onde estivermos, não estamos em nosso Mundo!
- Saara?
- O Saara, o deserto da Namíbia, de Kalahari, tanto faz. Por acaso você acha que algum deserto da Terra teria areia verde?

Os dois entreolharam-se. Sob seus pés uma areia esmeralda cobria aproximadamente todos os quilômetros que os dois podiam ver.

- Ferrou.
- Nada disso, vamos procurar por...

Ana Giovanni e Justus foram arremessados para trás. Uma ventania tomou conta do lugar levantando a areia verde. Os dois fecharam a boca e os olhos tentando não engolir mais quilos daquilo. O vento zuniu até formar uma espécie de barulho contínuo. Como um motor o barulho roncou alto. Uma melodia espalhou-se.

Estou guardando o que há de bom, em mim...

O barulho aumentou.

Amor, i love you. Amor, i love you.

Os dois jovens levantaram a cabeça quando o vento diminuiu. A areia verde baixou-se e um barco de madeira jazia a frente deles. O barco era enorme, possuía duas hélices gigantes na extremidade superior, apoiadas por uma espécie de mastro. Do lado de trás, uma hélice menor girava ainda devagar, como se controlasse o equilíbrio do veículo. Na madeira da proa a imagem de uma sereia albina segurando um cartaz.

Kalin, mais rápido que o Peixe-Abutre, mais agilidoso que o Carcará da Montanha de fogo, mais barato que o ônibus no Rio de Janeiro.

Ana Giovanni sorriu.

Um sujeito surgiu sobre a luz do sol, de dentro do barco. Foi até a extremidade do veículo e olhou para os dois.

- Que que há?

A primeira coisa que alguém diria sobre ele é que seria um pirata. Mas o sujeito parecia mais um garçom do que qualquer outra coisa. Dentro de um terno preto, camisa branca e uma gravata cinza, um rapaz albino ajeitou o lenço vermelho que prendia os cabelos.

- Senhores, foi aqui que pediram o Barco-Luz?

Justus ia falar quando Ana interrompeu correndo a sua frente.

- Sim! Foi aqui sim!
- Ah, então não me enganei. – puxou uma alavanca ao seu lado e o veículo rangeu. Uma portinhola abriu-se revelando uma escada – Queiram subir senhores! O Barco-Luz vai partir e preciso pegar outros dois senhores nas terras de Ghartyn. Apressem-se! – retirou um lenço do bolso e secou a face.

Os dois subiram pela escada até chegar dentro do Barco-Luz. Por fora o veículo lembrava uma traineira velha. Por dentro, sofás de veludo, castiçais dourados e uma mesa farta estavam delicadamente postos num amplo espaço.

- Com... com...
- Sim, Justus. Comida. – os olhos dos dois brilhavam.

O sujeito de terno puxou outra alavanca e o Barco-Luz apitou. Um vidro passou a fechar o ambiente rapidamente em cima de suas cabeças formando uma cúpula. Após isso as grandes hélices passaram a girar velozmente. O veículo começou a flutuar e uma música começou a soar de de suas caixas de som.

Eu te quero só pra mim, como as ondas são pro mar...

- O que é isso? Pagode?
- Nem me fala! O sinal do Barco-Luz pega as transmissões a rádio do mundo dos demais. É um inferno. Não aquele. Compreende, né.

O sujeito albino pigarreou.

- Ê-rei! Vamos partir!
- Para onde estamos indo?
- Ora bolas, senhores. Estamos indo para as terras de Jajaboh. Ao leste das Terras de Zarghos, o general do Fogo. Perto das Planícies da Ventania, do Povoado do Mar e próximo das Florestas Selvagens de Itako.
- Jaja...
- Jajaboh! A Cidade do Tempo!

Justus nem dava bola para o nervosismo da menina a seu lado. Seus olhos passavam de cerejas cobertas de chocolate para grandes pedaços de pães de mel com açúcar. Dos olhos para a boca. Vorazmente.

Dois minutos depois um painel colorido ao lado do homem brilhou. Ele se virou para ambos e alertou.

- Chegamos! Dois milésimos adiantados, mas chegamos. Kalin nunca atrasa!

Ana Giovanni prestes a morder uma maçã olhou pelo vidro. Seus olhos encontraram uma cidade prateada alguns metros abaixo do Barco-Luz que flutuava. O veículo rangeu mais uma vez e voou em direção à entrada da cidade, tentando pousar. Um relógio gigantesco soou no centro da Cidade do Tempo quando Ana Giovanni e Justus desceram do Barco-Luz.

Escrito por José Amarante às 2:31 PM // Link este capítulo

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