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capítulo XII - O negociador

Ana amassava a carta enquanto Justus tentava desamassá-la e colocá-la novamente dentro do plástico bolha quando um barulho vindo do elevador os surpreendeu. A grande máquina antiga estava subindo sozinha, deixando as duas crianças espantadas.

- E agora? O que faremos? Estamos presos! Quem vai achar a gente aqui?
- Ana, acho que não estamos sozinhos.

Além das tecnologias de ponta, o laboratório era repleto de estátuas de mármore, anjos envidraçados que mexiam a cabeça enquanto Justus e Ana se moviam para longe deles.

- Justus?
- Alguma idéia mirabolante?
- Você viu alguma janela por aqui?
- A única saída é pelo elevador.

Um exército de figuras de anjos esculpidos em mármores do lado oeste também se direcionava em direção aos dois.

- Estamos cercados, Ana.

O cordão de Ana vibrou. As estátuas se curvaram.

Intruder. Intruder. Intruder. Justus deu três passos para trás. Intruder. Intruder. Intruder. As estátuas perto de Ana ainda a reverenciavam. Mas Justus era cercado por estátuas de guerreiros angelicais que portavam armas. Seu amigo estava encurralado. As estátuas mexiam as cabeças intrigadas com o brilho intenso do colar da menina. Ela pode ver quando a figura de Mercúrio usou sua arma branca e atingiu o chão, ao invés de Justus. O tilintar da espada passou 1 milésimo rente ao corpo do menino. Sua roupa fora levemente rasgada. Justus se abaixou e correu, enquanto que diversos golpes eram lançados ao ar. Um milésimo, dois milésimos. Quando a estátua percebesse a tática de handball de Justus, ele estava frito. Ana precisava fazer alguma coisa. As estátuas de vidro ainda observavam perplexas seu cordão.

Por que minha mãe me botou na capoeira desde os quatro anos?, fizera essa pergunta ao espelho no dia em que mudaria de cordão. Ela não era ágil como as outras crianças. Demorava a se defender, era sempre a última a ser escolhida na roda. Mas sua mãe sempre insistia É auto-defesa, você vai me agradecer se algum menino se aproveitar de você. Ironicamente, ela estava usando as tais táticas para defender um menino.

Bem, pensou. Ainda bem que minha mãe insistiu.

Ela deu um mortal. Demorou três anos para tomar coragem e realizar a tal técnica. Morria de medo de quebrar o pescoço. Hoje, majestosamente fez o movimento. Os anjos de mármore mexeram suas cabeças para direita e esquerda, perplexos por não verem mais o colar. Ana agarrou uma arma verde-limão, com bolas de gesso e seringas finas em seu bico. Apontou para o anjo Mercúrio. Explodiu sua cabeça. Lembrou de Hellraiser. Antes da explosão, a cabeça foi perfurada pelas agulhas que entravam mármore adentro como se o anjo fosse feito de carne. Justus se abaixou.

- Vamos, Justus! Pro elevador!

Agora o exército de anjos de vidro e os de mármore não estavam mais felizes.

Intruders. Intruders. Intruders.

Ana e Justus atravessaram o grande hall escorregadio correndo. Ana segurava a arma e Justus o plástico bolha.

As sombras dos anjos chegaram junto de seus corpos em frente ao elevador. Estavam cercados.

- Justus.
- O elevador se foi, Ana.

Ana chutou a porta. Os anjos se aproximavam. Justus chutou também.

Intruders. Intruders. Intruders. A cabeça de Mercúrio tinha sido recolhida. As agulhas ainda estavam na face torta do anjo, segurada por um anjo de vidro. Ana chutou mais uma vez com força. Seu cordão agarrou na porta. O elevador se mexeu lentamente.

- Justus!!
- Puxa com força!
- Eu não consigo.

Justus puxou com toda força, mas estava enforcando a amiga. Não se perdoaria se algo acontecesse com Ana dentro de sua própria casa. A cabeça da menina estava sendo levantada. Seu pé quase já não atingia o chão. Justus tirou a arma da mão de Ana.

- Feche os olhos. Proteja o rosto.

Em dois segundos, ele apertou o gatilho. Faíscas atingiram a porta, mas ela não se abriu. Ana tinha agora só um pé no chão. Os anjos pararam.

- Acesso restrito.

Ele ouviu uma voz conhecida. Quando olhou para trás, todas as estátuas se curvaram. A porta do elevador se abriu e Ana foi jogada para longe. De dentro do elevador, uma figura alta e ruiva surgiu, mais parecida com as estátuas do que com qualquer outra coisa.

- Justus?
- Pai?

Rafael estava diferente. Seus olhos não estavam mais azuis e sim negros. Esses mesmos olhos alcançaram Ana no chão.

- Ana?

Intruders. Intruders. Intruders.

Rafael levantou o braço. Todas as estátuas evaporaram-se. Justus apontou a arma verde-limão para o peito de seu pai.

- Você é do bem ou do mal?

Rafael sentou-se confortavelmente em sua poltrona de veludo alemão. À sua frente, Justus ainda segurava a arma e Ana a carta.

- Muito bem, crianças. Ok, vocês merecem uma explicação.

Justus e Ana, calados, deixavam o engenheiro desconfortável.

- Eu e seu pai construímos isso aqui embaixo, Ana. Queríamos um lugar secreto, sagrado, onde nenhum demônio pudesse nos achar.

Justus levantou a sobrancelha.

- Demônios?

- Você não deveria saber, Justus. Mas eu deveria. Um andar inteiro traz curiosidade, né? Prometeu acorrentado.

Justus estava hipnotizado pelos olhos negros de seu pai. Ao mesmo tempo, ele não tirava os dedos do gatilho da arma. Ainda não confiava. Seu pai olhava fixamente para o colar de Ana.

- O exército que vocês viram, são meus protetores. Ou eram. A evaporação demora a fazer com que eles retornem. Geralmente em um, dois dias, todos estarão com os chips limpos e poderão tomar conta daqui de novo. Enquanto isso, estamos à mercê de nossa própria sorte.

- De quê que o senhor está falando, Sr. Rafael?
- De que os demônios estão entre nós, entre os humanos. Os demais.
- Demônios?
- Seu pai era um vigilante caído, Ana. Ele era o quarto. Permaneceu junto às portas do Éden com uma espada ardente, combatendo à tempestade e ao terror, um guardião dos mundos. Trouxe Lu à Terra. Você não sabe como ele sofreu quando soube qual era a missão de Lu. Ele destruiu os exércitos de Senaquerib! Era o espírito de visão mais arguta de todo o Céu. De toda Terra. Era meu melhor amigo também.
- O que aconteceu com ele?
- Não sabemos até hoje. Alguns acham que foi enfeitiçado, o que acho meio difícil, outros de que ele, ele...
- Ele?
- De que ele desistiu.
- Desistiu de quê?
- De ser a face de Deus.
- Mas por quê?
- Porque ele queria te salvar, menina. Ele não queria ser responsável por esses acordos.
- Acordos?
- Pactos.
- Pactos?
- Pactos entre os demais e os seres iluminados.
- Você pode ser mais claro, pai?
- Entre Deus e Lúcifer.
- Nós lemos a carta, pai. Vocês mais pareciam terroristas.
- Justus, somos o reflexo da sociedade. Você acha que estamos satisfeitos com tudo isso? Deus pensa em até...

Os olhos de Rafael voltaram a ser azuis. A negritude se desfez rapidamente, fazendo com que Justus levantasse e apontasse a arma para seu pai e fizesse Ana dar um passo para trás.

- Shhhh. Você estão ouvindo isso?
- Não há nada, sr. Rafael.
- É por isso mesmo.

Os pássaros caíram mortos do céu. Pés dentro de uma bota Berluti. Do lado de fora da casa, Lu ajeitava o paletó Dior.

- Rafael, mon cherie. Você tinha que estar por trás disso mesmo.

A cada passo que Lu dava as plantas se contorciam, as flores ganhavam um tom monocromático e fúnebre e seus caninos embranqueciam.

- Não temos mais tempo, Ana. Você precisa me dar esse cordão.
- O quê?

Rafael avançou em direção à Ana.

- Não chega perto dela!

Justus mirou seu pai.

- Não vou te dar meu cordão.
- Você usando esse cordão. Ana, é perigoso.
- Meu pai queria que eu usasse.
- Impossível. Seu pai...

A porta do andar de cima arrebentou. As paredes do andar debaixo tremeram.

- Logo logo ele estará aqui. Não temos tempo. Temos que destruir esse cordão. Agora!

A mão de Rafael agarrou o cordão. Justus mirou a cabeça de seu pai.

- Ela fez um estrago a uma estátua de mármore. Imagine o que não faria com a sua. Eu já disse, larga a Ana e o cordão.
- Justus. Você não sabe o que está fazendo.
- Sei muito bem.
- Você... Eu sou seu pai! Você tem que obedecer! Abaixa essa arma, Justus.
- Você é um negociador.
- Eu sou seu pai!
- Um cara que anda vendendo coisas.
- Eu ainda sou seu pai!
- Por quanto que você me venderia, pai?
- De quê que você está falando?
- De que lado você está?
- Do seu, meu filho. Do seu.

Uma figura atraente saiu do elevador.

- Ele está do lado de Deus, chevreau.

Lu era elegante. Sua camisa de cetim preta o deixava onipresente.

- Heosphoros.

Rafael se curvou. Lu também. Ambos se abraçaram e se beijaram.

- Meu Deus, Justus!

Justus continuou a apontar a arma para seu pai.

- É ela?

Rafael emudeceu.

- Você não pode mentir, Rafael. Uma das regras.
- Sim. Ela não sabe de nada, Lu. Por favor. Uma menina.
- Ele escolheu bem, hein?

Ana se encolheu. Justus a protegeu com a arma verde limão.

- E aquele é seu filho?
- Sim.
- O bebê Justus!
- Sabe que sua maman era uma mulher encantadora, Jus?

As mãos de Justus tremiam.

- Você não precisará de armas, chevreau.

Rafael intercedeu. Quando Justus piscou, seu pai estava entre ele e Lu. Lúcifer rasgava a pele de Rafael, o que deveria ter acontecido com Justus, se seu pai não estivesse à sua frente. De repente, os pensamentos de Justus foram interrompidos com uma voz conhecida.

Corra, Jus. Se esconda com Ana. Não volte. Procure ajuda. Ache o livro dezesseis no elevador. Acabe com o cordão. Ana precisa de você.

Lu levantou Rafael. Rasgou suas costas. Da costela, pode-se ver pequenas protuberâncias brancas.

- Mostre-se, ange.

Rafael uivou. Seus olhos amendoados tornaram-se negros. De suas costas, uma fileira pequena de pequenas asas tomou forma.

- Mon amour, você já não tem poderes celestiais. É simplesmente um negociador burocrata.

Rafael balançou seus cachos ruivos. De seus olhos uma luz branca brotou, fazendo com que Lúcifer tropeçasse.

- Agora, Justus!

Justus puxou Ana. Eles correram para dentro do elevador. Justus jogou água benta pelo chão. Abriu todas as bíblias que pode.

- Um portal, Ana. Um portal.
- O quê?
- Precisamos sair daqui.

Lúcifer levantou. Da branquidão ele mandou um jato vermelho para cima de Rafael. O chão tremeu. Os ventos saíam do chão.

- Portador do Archote. Tenha misericórdia.
- Você é um nada, mon amour.

As penas de suas costas foram arrancadas pelos dedos de Lúcifer. Rafael se contorceu. Justus ainda pode ver o olhar azul do pai quando Ana o agarrou e o puxou, rumo a um portal desconhecido. Em sua mão, ele levava o livro dezesseis.

Lúcifer olhou para o elevador. No chão, uma carta dourada se desfazia.

- Merde, esbravejou Lúcifer.

No chão, Rafael se contorcia. Seus olhos estavam verdes, opacos.

- Mostre-se, démon.
A figura abriu um sorriso pelo canto da boca. Desproporcionais e salientes caninos nasceram no sorriso da nova forma.

- Bien, você deixa de ser Rafael para ser um Daymon F11.

A figura continuou sorrindo.

- Você sabe quem é Justus?
- Aquele que devo matar.
- Por quê?
- Porque ele guarda a vida de Ana.
- Merci!

Lu acendeu um cigarro de Bali de canela e passou a caminhar rumo ao leste. Uma parede foi demolida. Ele passou lentamente pelos escombros, enquanto que Rafael, o atual Daymon F11, cheirava os restos das cinzas da carta que Ana outrora segurava.

Escrito por The unknown human who sold the world às 7:00 PM // Link este capítulo

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