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capítulo X - INRI

- E você conseguiu fugir de Maria Clara ajudada por uma barata falante e que te ensinou a abrir portais no espaço?
- É, resumindo. Foi isso.

Justus soltou uma gargalhada irônica.

- Prove.
- Provar?
- Sim!

O menino estava sentado na escada espiral de estilo gótico, projetada pelo maior arquiteto da região para os Giovanni. Ele não estava brincando dessa vez. Ana não sabia o que fazer. Desde que a barata tinha indo embora não abrira mais portais.

- Você não acredita em mim, Justus?
- Além do fato de você ver uma pessoa entrando em nosso mundo e de que você anda com um cordão bem estranho que cheira à menta?
- Você é meu melhor amigo, por que eu mentiria?
- Para sua descoberta ser maior do que a minha.
- Me poupe, garoto.
- Sra. Ana Giovanni - os dois passaram a descer as escadas - Eu tenho o prazer de lhe comunicar que consegui a senha do laboratório de meu pai.

Ana riu com um certo ar de deboche.

- A que você procura desde os 5 anos de idade?
- Sim, pois é.
- Impossível. Por que você ia conseguir logo agora?
- Porque eu fiz um acordo com um garoto da terceira série do ensino médio que estuda processamento de dados na Luiz de Lemos.
- Ainda se estuda isso?
- Ele invadiu o laptop do meu pai.
- Hum... - franziu o cenho - Sei.
- A senha é INRI!
- E o que tem lá dentro?

Justus deu uma risadinha contida.

- Você não quer lá descobrir?

A casa de Justus não era tão histórica e graciosa quanto à de Ana, mas era um exemplo de arquitetura pós-moderna. O pai de Justus era apaixonado por andares e sua casa tinha vários deles. Clean, ela era arquitetada toda de vidro e móveis pretos. Nada exuberante em termos de detalhes, mas elegante ao ser simples e despojada. Os ambientes imensos eram sempre agraciados com uma luz de diferente tonalidade, fazendo da casa um lugar de agradável atmosfera.

Justus e Ana passaram pela governanta que conversava com o chofer. Uma senhora um tanto gorda e pálida.

- Justus. Você tem que prometer...
- Prometer o quê?

Eles passaram pelo hall principal. Justus deslizou pelo chão que tinha um gigantesco sol projetado em ladrilhos escoceses.

- Não conta para ninguém o que aconteceu comigo.

Ana apertou o elevador.

- Quem vai acreditar nisso, Ana?

O elevador residencial abriu-se.

- Você não acredita, Justus?

O pequeno garoto apertou o botão 5.

- Você já me provou?

O quinto andar era projetado somente para o pai de Justus. Rafael, um engenheiro renomado obcecado por projetos arquitetônicos de séculos passados.

Justus era filho único, assim como Ana Giovanni. Ambos foram criados por babás, governantas ou pessoas de fora do círculo familiar, enquanto que suas mães muito juntas saíam em viagens para Bariloche, Veneza e Iuguslávia. O garoto passou a infância pedindo para sua mãe levá-lo em uma das viagens e quando ela combinou em um passeio pela Espanha, morreu misteriosamente em um acidente. Atropelada. Sem vestígios. Sem carros. Sem pistas. Enquanto isso Justus fora levado para tomar sorvete no Heladore's, uma das mais famosas sorveterias espanholas.

Às vezes acordava assustado e jurava que via sua própria mãe fechando as cortinas de seu quarto pela madrugada. Os espanhóis não deixaram o menino ver o corpo. Ele ainda podia se lembrar de uma senhora com estranhos óculos de largas hastes e grossas lentes, dentro de um grande vestido colorido e embaixo de um florido chapéu amistosamente lhe dizer alguns consolos.

- Tu mamá se fué. Tu tienes que hablar con tu papá.

Seu pai mandou sua tia buscá-lo. Na viagem de volta, a irmã de sua mãe abraçou-o fortemente. Os dois choraram o vôo inteiro. Desde então, Justus não chora.

- Eu não acredito que você duvida de mim. Eu deveria ir embora!

Justus agarrou a mão da amiga, como quando agarrou a mão de sua tia voltando da Espanha.

- Não. Por favor, você sabe o quanto isso é importante para mim.

Ana hesitou, mas cedeu.

- Qual a senha mesmo?

A porta do laboratório era bonita. Prateada. Em volta, pequenos espelhos em forma de losango. Havia um olho mágico esbugalhado no canto direito, logo acima do quadrado contendo letras e números. Cada vez que Justus digitava algo, o olho mágico abria e fechava enquanto um barulho de máquina registradora processava a mesma mensagem.

Error.

- Não é possível. O Lucas futucou tudo. Eu mesmo vi.
- Às vezes a senha não está no lap.
- Impossível! Tudo é conectado ao lap, toda a casa. - Justus rosnou baixo
- Justus, esquece isso.
- Como assim esquecer? Eu tenho um andar inteiro na minha casa que não conheço.
- Talvez seja melhor deixar para lá. - Ana Giovanni alisou os cabelos do menino, tentando confortá-lo.
- Deixar para lá? Ele não confia em mim, Ana. Ele é meu pai, tinha que confiar em mim!

Justus chutou a porta. A mensagem Error continuava lá.

- Tudo bem - Ana respirou fundo - só porque você disse que queria uma prova.
- Hã?

Ana Giovanni fechou os olhos dessa vez. Precisava se concentrar e se ficasse de olhos abertos iria se distrair com a surpresa de Justus. O engraçado foi que, mesmo com os olhos fechados, ela pode ver nitidamente a porta prateada. O barulho da máquina registradora voltou.

- Mas o q... - o menino arregalou os olhos o máximo que pode.

O barulho voltou ensurdecedor. Ana se assustou com sua força. Quando abriu os olhos um buraco prateado girava velozmente.

- Jus...

Só deu tempo de Ana agarrar a camisa de Justus ao mesmo tempo em que era puxado. As partículas de seus corpos se desintegraram rapidamente enquanto o olho mágico da porta derretia.

Justus caiu do outro lado da porta de joelhos.

- Certo. Certo. Eu prometo não contar nada. - poliu os óculos vermelhos na frente do rosto.
- Desculpa, Justus. Acho que me concentrei demais.

Quando levantaram, deram de cara com outra porta, mas de madeira. No meio dela, uma cruz de imbuía.

- Ah, não! De novo, não!
- Qual é a senha mesmo? - correu até um painel imbutido na parede ao lado da porta.

Quando Ana digitou as letras INRI, seu cordão pairou no ar. A porta havia sumido. A única coisa no cômodo era um elevador antigo, recoberto de paredes acolchoadas.

- Você tem certeza que seu pai é engenheiro?
- O que é isso, uma piada dele? Esse tempo todo ele tá escondendo um elevador? Mas esse é o último andar. Para onde esse elevador vai?

Ana entrou dentro do elevador. O barulho dos pés no metal ecoava de algum jeito. No teto, uma outra cruz esculpida em ouro branco.

- Seu pai é católico, Justus?
- Não. Por quê?

Os botões eram letras em aramaico. O chão era transparente. Vidro.

- O elevador desce.

Justus se alinhou ao seu lado.

- Como assim?

No canto esquerdo uma estante embutida com diversos tipos de livros com cruzes chamou sua atenção. Era rustica, como as estantes da biblioteca do Colégio Sagrado Coração.

- Bíblias?
- Será que seu pai... Você quer mesmo continuar?
- Mais do que nunca. - os olhos do rapaz brilharam.

Ana apertou um botão aleatoriamente. Um barulho distante fora ouvido, como um metal batendo em outro. De repente o barulho aumentou, ouviu-se algo partindo. O elevador despencou. Ana e Justus tentaram se segurar nas paredes, mas a velocidade aumentava cada vez mais e os jogava de um lado para o outro.

- Pára isso, Ana!

Quanto mais Ana Giovanni apertava os botões mais o elevador avançava em direção ao chão. Os livros não se mexiam, mas o elevador sacudia. Eles se aproximavam do chão, podiam ver pela transparência do elevador.

- Tira a gente daqui! Abre aquele maldito buraco novamente!
- Eu não consigo!

Faltando dois metros para atingir a terra, o elevador parou. O cordão de Ana pairou no ar. Os dois estavam suados e uma gota desceu pelo rosto de Justus.

- Da próxima vez eu aperto o botão! Esse cordão está com defeito.

A porta abriu-se sozinha.

- Não abra-me se quiser entrar, Justus?
- Não deixava de ser uma pista.

Os dois se entreolharam.

- Ok. No três.
- Você começa, Ana.
- Um.
- Dois.
- Três! - as duas vozes se encontraram.

Os dois pularam para fora do elevador. Escuridão. Vento gélido. Aroma de menta.

- Ana? Ana?

Justus encontrou-se sozinho. Ana havia desaparecido. O pavor começou a tomar conta dele quando um gerador foi ligado e um clarão tomou conta do lugar.

- Uau!
- E você ainda acha que seu pai é engenheiro? - Ana limpou a poeira do vestido do uniforme do Sagrado Coração. Então lembrou-se que não comera, não tomara banho e estava pressentindo que iria demorar para novamente cumprir essas tarefas.

Era um salão gigantesco. O dobro do tamanho do refeitório da escola. Milhares de armários brancos, com fechaduras douradas. Alinhados por tamanho, diversos tipos de arma. Centenas de pistolas brancas, milhares de escopetas azuis-piscina, dezenas de facas e Zilhões de água benta?, pensou a menina ainda boquiaberta.

- Por um minuto eu pensei que era parente do seu Marcola. Acqua benedetta? - leu com dificuldade o rótulo de um dos vidros.
- Será que seu pai é um lobisomem? - Ana riu mais uma vez tentando se controlar.

Do lado leste, uma imensidão de livros até o escuro teto, uma escrivaninha e um aparelho que lembrava um computador. Mas era muito mais complexo, portando inúmeras telas de vídeo, botões e luzinhas. Uma espécie de televisor, nas imagens, vários aposentos de uma grande casa eram vistos. Pelo monitor os dois reconheceram na hora a escada em espiral que ia do primeiro até o segundo andar.

- Justus! É minha casa!

Um pedaço do monitor eram gravações do quarto de Ana. Ana conversando com Justus e todos os demais cômodos. Como gravações.

- Por que meu pai te vigia?

As figuras de anjos esculpidos em mármore chamou a atenção do lado oeste.

- Não estou gostando disso, Justus.

O menino vasculhou cada pedaço da escrivaninha com destreza.

- O que você tá procurando?
- Por que meu pai te vigia? - ainda atônito, parecia não saber dizer mais nada. Continuou a fuçar.

Ana Giovanni não prestou atenção nos resmungos do amigo porque algo mais além chamara sua atenção. Em um pequeno santuário estava um envelope seda laranja, com um emblema vermelho dourado. O que chamou sua atenção era que aquilo lembrava algo que ela tinha visto recentemente. Pegou o envelope que estava envolto a um plástico-bolha e abriu-o cuidadosamente.

Amigo Rafael,

Creio que as negociações não estão boas do lado de lá. Hoje não consegui controlar e dois aviões colidiram com as Torres Gêmeas. A burocracia atrapalha nosso trabalho. Há um prazo a ser cumprido e só Deus sabe quanto será pedido. Creio que o andar debaixo está pronto para assumir o poder, mas temos que ser cuidadosos já que o Senhor não quer injustiças. Se eu não conseguir o acordo, peço que tome conta de Ana por mim. A mãe dela não compreenderá muito, mas acredito em minha menina.

Seu amigo de longa data,
Uriel.

P.S.= você já viu o novo Ibook que será lançado em 2006? Se a supervisão da Terceira Tríade deixar, levo um para ti.


Justus olhava por cima do ombro de Ana Giovanni.

- Uau! Um Ibook!
- Justus...
- Mas quem é Uriel?
- Meu pai.

Escrito por The unknown human who sold the world às 6:08 PM // Link este capítulo

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