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capítulo VIII - O acordo

- Vida longa ao verme! Vida longa ao verme!

O buraco repleto de lacraias, aranhas e outras demais baratas foi fechado rapidamente. Era um terreno impróprio para seu tamanho. Ana nunca havia imaginado que um mundo repleto de seres originais da Taxonomia de Lineu pudesse existir. Ou coexistir com a realidade dela. Mas havia, havia sim. Talvez seja de lá que eles surgem na minha cozinha, imaginou. E depois de fugir dos muros do Colégio Sagrado Coração criando um portal com uma árvore do pátio, ainda tonta em seus pensamentos, percebeu uma voz estridente vinda do chão novamente.

- Anda! Anda! Esse mundo já era! Vamos para outro!
- Há muitos outros?
- Assim como há muitos cabelos nesse mundo.
- Uau.
- Uau nada, maior dor de cabeça. Cuida daqui, abre dali, supervisiona de cá, ensina de lá. Vida burocrata, salário miserável.
- Hã?
- Vamos! Vamos! Temos que...

A barata escorregou por uma tubulação, quando o tênis de Ana atingiu as grades metálicas do bueiro bem a sua frente. A placa da rua São João balançou. O inseto que falava sem parar, soltou um grito:

- Não há mais tempo! Os demais estão vindo!

O relógio central da rua batia.

A barata ainda segurou pela grade com seu bigode avermelhado.

- Não se preocupe! Querida, você vai aprender sozinha! Vá logo!

Ana ainda tentou pegar a barata com seu dedo mindinho, mas a mesma se soltou, deslizando esgoto abaixo. Ela abaixou para olhar mais além, mas só ouviu um tilintar de algo caído no fundo do túnel. Um gari limpava a rua. Jogou papéis e poeira bem na hora que Ana levantou a cabeça. Ela era sempre vítima de anomalias agarradas em seu cabelo.

- Me perdoe, menina! De onde você surgiu?

Ana abaixou a cabeça novamente, sacudindo a poeira agarrada em seus fios. Foi assim que algo chamou sua atenção. No meio das grades do bueiro um envelope seda laranja, com um emblema vermelho dourado reluziu diante de sua face. No mesmo instante, uma ventania tomou conta do lugar. Assustada com o arrulhar dos pombos e com o relógio que não parava de bater 16:00 horas, correu segurando a carta instintivamente.

No meio da rua, Ana Giovanni viu o pedaço de uma mão, flutuando a alguns metros dali. Era transparente, uma cor cinza-violeta, ou algo assim, realizando um gesto. Os dedos sumiam e apareciam enquanto o membro gesticulava no ar. Abrindo um portal para meu mundo, pensou. O envelope que estava em sua mão começou a se decompor. Rapidamente, ela retirou o papel de dentro, enquanto que as cinzas do envelope caíam. Não sabia porquê, mas precisava sair dali. Ela não deveria estar vendo alguém entrando em seu mundo. Ninguém deveria perceber. E na verdade ninguém estava mesmo, segundo uma conversa de 40 minutos que tivera alguns minutos antes com a barata falante. Tinha 20 segundos até o ser do outro lado, onde estivesse, pudesse atingir seu mundo. Desdobrou a folha e leu rapidamente:

Querido Deus.

O dólar está em alta. Estamos em pleno ano de acordo mútuo. Líbano, Brasil, Paraguai, Estados Unidos, Indochina e Antártida. Liberalismo e globalização. Internet a cabo. Para que se preocupar com o destino do mundo, cara? Você já deu o livre-arbítrio. O preço está alto, amigo, mas pense em algo como abertura de processo. Aceito sua oferta devido à tecnologia implantada. Ok, compro o mundo.
Lu.

P.S. = O Conselho de Ética do Senado decidiu hoje enviar para a Mesa da Casa as denúncias contra os três Demais apontados de envolvimento com a máfia dos sanguessugas. Peço sua permissão para interferir.

5.4.3.2.1. A carta se desmanchou. Ana se escondeu atrás de uma árvore.

Andando calmamente, segurando uma maleta de couro comprada na Le Postiche, o arcanjo da Esperança, Anunciação e Revelação tirou do bolso um PalmOne LifeDrive e agendou um compromisso para às 18h. Gabe ajeitou seu terninho e seu sapato alto.

- Sim. Preciso fazer as unhas. Um ser feminino tem que estar a rigor. Não reclame. É o mínimo - falou pelo celular.

Encostada em uma árvore, Ana Giovanni viu a mensageira se afastar, ainda falando no telefone.

Caracoles, pensou. Deixa o Justus saber disso!

Escrito por The unknown human who sold the world às 12:03 PM // Link este capítulo

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