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capítulo VII - A barata e a fuga
As pernas de Ana Giovanni não paravam. Cada vez mais longe dos corredores frios e úmidos do Colégio Sagrado Coração, sua respiração começava a dificultar, os pés inchavam e a mochila pesava cada vez mais em suas costas. Resolveu parar bem próxima das grandes muralhas que torneavam a escola. Encostou em uma árvore e tentou tomar fôlego.
Lembrou-se dos últimos momentos em sua vida. Acordara de um dos rotineiros e misteriosos sonhos que tinha todos os dias e sempre tentava esquecer, criando assim um tabu quando alguém mencionava sonho. Era sempre a mesma coisa, estava em meio a um vasto campo de trigo, o horizonte se perdia em um céu azul e com uma rapidez monstruosa uma poderosa tempestade se abria sobre sua cabeça. Em meio aos ventos e trovões ela era sugada para dentro de um buraco aberto em meio ao nebuloso cenário.
Sugada.
Então seus pensamentos voltaram a situação do banheiro. Estava atrasada para aula de Álgebra, então colidiu com a figura tenebrosa de Maria Clara, sua eterna inimiga de infância. Aquela garota tem problemas, pensou. Então os dois brutamontes de Maria Clara a jogaram no banheiro e fizeram tudo aquilo que, mesmo fresco em sua memória, ainda era difícil de lembrar. O móvel tapando a porta, a privada, os risos abafados e...
- Não me esmague, tenho filhos!
Ana Giovanni levantou uma das pernas e encontrou o simpático inseto, a barata cascuda, espremida debaixo de seu tênis.
- Não acredito. - arregalou os olhos e tentou ver mais de perto - Não é possível!
A barata sacudiu o rabo e como se fosse voar, pestanejou.
- Olha aqui minha filha, eu tenho mais o que fazer do que tentar provar minha existência a você. - Mas, mas... Desculpe, queira me perdoar. Eu não falei por mal. - Eu sei, querida. Não se encontra uma barata que fala todos os dias, não é mesmo? Aliás, se todas as baratas falassem como eu, duvido que os comerciais de Baigon fossem os mesmos. Imagina? Uma barata-filhote sendo morta por aquele vapor nazista? Seu choro é de desesperar qualquer barata-mãe. Aliás, sabe que aquilo é derivado dos Nazistas, né?
Ana Giovanni piscou algumas vezes tentando acompanhar a barata, sua voz diminuta saía esganiçada enquanto sem parar, andava pra lá e pra cá como se estivesse tonta.
- Eu... Eu não sabia. - Pois é, e tem mais. Sabe o que é pior? Ser comida. Gente, ser comida? Você sabe o que é isso? Ah! Não me leve a mal, mas prefiro ser morta por um Baigon gigante e atearem fogo em mim do que ser devorada. Gente, meus primos dizem que na África as pessoas nos comem vivas! Gente, na China também. Pelo menos os esgotos da China são tão atrativos! - Olhe, desculpe, mas preciso sair daqui. Maria Clara deve estar querendo meu pescoço a qualquer custo e... Bom, aqui dentro sou alvo fácil de suas vontades mesquinhas e pera aí, estou falando com uma barata?
O inseto ainda falava quando percebeu que a menina estava aflita.
- Meu bem, você não usou sua mágica? Então, querida, seja esperta. Vamos, trate de por essa cabecinha repleta de shampoo para funcionar. O que aconteceu com você? - Eu voltei no tempo? - Correto, querida. Mas e depois? - Depois eu encontrei você, aqui. - Certo! Eu sabia que você não era um caso perdido.
A barata ergueu-se nas duas patas traseiras e passou a comemorar numa espécie de dança.
- Pois bem querida, você precisa agora aprender a viajar pelos portais de espaço.
Ana Giovanni torceu o nariz e inclinou-se para prestar atenção.
- Veja bem, você é uma Giovanni, querida. Sua mãe nunca te contou nada sobre seu pai?
Então tudo estalou. O vento que antes chacoalhava seu cabelo fora interrompido, as folhas que caíam uma vez ou outra da árvore pararam e sua mente não conseguia pensar em mais nada do que em seu pai.
- Querida, preste atenção em mim. A história sobre seu pai é longa e você não tem tempo pra continuar aqui. Vamos embora! - Mas como? Os portões estão fechados, os muros são altos e nenhum aluno tem autorização para sair do colégio antes de meio-dia.
A barata fungou algo e subiu por seu ombro.
- Você realmente vai me dar trabalho.
O pequenino inseto desceu até o gramado e indicou uma folha. Ana pegou-a com cuidado. Logo depois mirou com as antenas um graveto a seu lado. Subiu ligeiramente até sua orelha e balbuciou algo.
A menina levantou-se e quebrou o graveto em dois repetindo uma estranha frase. Jogou os gravetos no chão e estendeu a folha a sua frente com o braço esquerdo.
Um leve zumbido passou a soar no ar até se transformar num chiado estridente e por uns instantes sentiu o chão tremer. Percebeu algo acontecendo a suas costas. Quando virou-se, pode ver a imponente árvore antes imóvel e ereta curvar-se até sua ponta esquerda formando um formidável arco. No meio, como um espelho d'água, a imagem da rua do outro lado do muro era vista nitidamente.
- Gente, não é que você é boa mesmo?
O inseto gritou para que ela seguisse em direção ao arco. Quando Ana aproximou-se a mesma sensação de antes do banheiro fora sentida, um ardor repentino percorreu seu corpo e fechou os olhos atravessando-o.
Quando abriu-os estava na movimentada rua São João e a folha da árvore dissolvia-se em sua mão esquerda lentamente.
Escrito por José Amarante às 4:13 PM // Link este capítulo
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