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capítulo V - O portal
O sinal rompeu o silêncio do pátio dois segundos depois que Ana Giovanni se despediu de Justus e apresentou sua carteirinha para o fiscal. Se chegasse mais uma vez atrasada irmã Irene a levaria para direção e ela teria mais uma fichinha para sua coleção de atrasos. Normas do Sagrado Coração, Portas Abertas. Ana conhecia muito bem o regulamento do imenso colégio, cuja santa localizada na parte anexa do colégio, chorava lágrimas de sangue, segundo as crianças da primeira série.
O colégio Sagrado Coração, Portas Abertas localizava-se no centro da metrópole, dois quarteirões de prédios, bibliotecas, quadras e rigidez católica.
Ana precisava correr mais o prédio B e C para poder chegar a tempo. Suas meias três por quatro deslizaram dos joelhos para as canelas ao atravessar o prédio B. Sua pasta polionda escorregou de sua mão ao entrar no prédio C. Todas as colas se espalharam pelo largo chão encerado. Apressadamente tentou recolhê-los, mas uma mão feminina, com uma pulseira da Hello Kitty agarrou a pasta polionda.
- Obrigada, Aninha do meu coração.
Ana não queria levantar a cabeça, mas seu corpo burlou seu pensamento.
Maria Clara Neves Soares, filha do prefeito da maior cidade do Quadrilátero Metropolitano, com seus dentes perfeitos e sua roupa encharcada de perfume francês legítimo, com o dedo indicador direito empurrou o corpo agachado de Ana.
- Ops. Cuidado, amiga. Você pode perder suas colas.
Ana Giovanni fechou os olhos.
- Você sabe que vender cola escolar é um negócio ilegal, não? - Isso não é cola, Maria Clara. - E você sabe que eu não gosto de você, né?
Maria Clara era supervisora juvenil do colégio, eleita pelos estudantes com 90% de votos. Bonita, popular, rica e com um mal hálito que dava náuseas em Ana Giovanni.
- E você sabe que você engoliu um valão podre, não?
Além das características acima, Maria Clara andava com dois guarda-costas mirins. Igor, sétima série e Miguel, quinta. Igor era jogador de basquete tetracampeão estadual. Miguel, bem, Miguel era o nerd que ajustava o cérebro de Maria Clara.
- Sua pirralha nanica!
Com o mesmo indicador que a derrubara, Maria Clara apontou para os papéis e para Miguel que rapidamente os picou e jogou no bebedouro horizontal. Com o indicador esquerdo, sugeriu o banheiro para Igor. Com um único braço, o garoto levantou Ana e a jogou dentro do banheiro feminino. Ana só sentiu o chão molhado quando quicou pelo Veja Limão.
- Clarinha, eu posso ficar na porta vigiando - vozeirizou Igor. - Não. Você virá para cá.
Igor fechou a porta. Ana gelou. Nunca Maria Clara tinha ido tão longe, quebrando as regras escolares.
- Ana Giovanni. Eu te condeno a ser a rainha da merda! - gargalhou Maria Clara.
Igor sorriu. Puxou Ana pela saia e a jogou latrina abaixo. Seus cabelos se encheram de urina e seus olhos de lágrimas que quase caíram.
Ainda gargalhando, Maria Clara fechou a porta do banheiro individual com uma gigantesca cômoda antiga que as freiras usavam para guardar papel higiênico e produtos de limpeza. Ironicamente, Igor jogou um pacote de Neve, atingindo a cabeça de Ana, dizendo:
- Sentado nesse vaso, tenho uma visão profunda: a merda que bate na água e a água me bate na bunda.
Ana ainda ouviu os passos dos dois, saindo felizes. Depois disso, o mundo ficou preto.
Acordou uma hora depois, com os cabelos endurecidos e sendo observada por uma barata cascuda. Tentou abrir a porta, mas a cômoda era pesada demais. Derrotada, abaixou a tampa do vaso e sentou. Não dava para pular porque era alto demais. Amedrontadas pelos filmes hollywoodianos, as irmãs fizeram portas gigantes para que nenhum engraçadinho pudesse olhar as meninas ou até mesmo as freiras.
Ana não tinha saída. Mais cedo ou mais tarde alguém entraria no banheiro e aquilo seria suspensão na certa. Olhou a barata. A bicha parecia hipnotizada.
Seria o cheiro da urina?, pensou.
Foi para um lado e a pequena a seguiu. Foi para o outro e a mesma a acompanhou. Tendo como aliada o bicho mais asqueroso do planeta, Ana sentou-se novamente e começou um papo-cabeça:
- Eu tô encrencada, dona Barata.
Automaticamente, Ana começou a ler a pixação da porta do banheiro:
"Se você volta no passado e mata sua avó, sua mãe não nasce. Se sua mãe não nasce, você não nasce. Se você não nasce, quem volta no passado para matar sua avó?"
- Essa é fácil. Eu mesma. Só que ficarei para sempre presa no passado.
Uma voz fina veio do chão:
- É claro que vai ficar presa. Você ainda não abriu o portal.
Ana deu um pulo de susto.
- O quê?!
O corpo do inseto tremia enquanto as palavras saíam de sua boca.
- Tá esperando o quê?
Ana arregalou os olhos. Era o banheiro assombrado?, pensou. Em resposta a seu pensamento:
- É só você se concentrar e pensar na primeira palavra que te fez parar nessa situação.
Ana estava sonhando, com certeza.
- Anda, guria! Eu não tenho todo o tempo do mundo.
A barata avançou.
- Caracoles, você fala? - Não, eu tô surfando na Internet.
A barata subiu a latrina, olho no olho.
- Anda! Vou te ajudar. Se concentra em mim, vou descer. Foque em meu movimento e lembre da primeira palavra.
A barata pulou para o sachê violeta situado no canto do vaso.
- A primeira frase, anda!
Ana forçou a memória, não acreditando no que ia fazer.
- Obrigada, Aninha do meu coração.
O inseto pulou. Ana parou de piscar. A barata suicida caiu na água de xixi amarelo claro. Ana concentrou-se. A água começou a se movimentar em círculos, a descarga pôs-se a funcionar sozinha. A barata, antes de afundar, profetizou:
- Coração meu do Aninha, obrigada!
Um jato circular parou diante de Ana Giovanni. Dentro dele uma imagem iluminada por raios solares. Curiosa, tocou lentamente a água. O buraco abriu-se. Ela colocou a mão. As partículas de seu corpo tremeram e foram puxadas bruscamente.
No banheiro, o papel Neve começou a se decompor, queimando sozinho.
Escrito por The unknown human who sold the world às 11:54 AM // Link este capítulo
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