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capítulo IX - Nova vizinha
Ana correu apressada pelo bairro até chegar em sua rua. Mirante Flores. Não era a toa o nome dado ao lugar. Uma rua sem saída, com magníficos jardins espalhados entre os majestosos casarões. Algumas poderiam chegar a se dar o luxo de serem chamadas de Mansões, mas nenhuma passava da grandiosidade da casa de Ana Giovanni. Além de grande, ela era peculiar. A calçada sempre lhe chamou a atenção. Desde pequena estava acostumada com os entalhes no piso. Pequenas estrelas e luas preenchiam as pedras, riscadas por estranhos escritos. Talvez fosse o tempo desgastando-os, mas algo de interessante rondava a calçada dos Giovanni. O jardim interno, um gigante tapete de violetas ia da porta inferior até a porta principal da casa. Branca-ouro, sempre recém-pintada - que fazia a menina sempre se questionar quem na verdade pintava sua casa - as janelas no formato do século passado, com o vidro muito complexo, cheio de detalhes. Número 33.
A menina entrou afoita no terreno e sentiu um calafrio. Não quis parar até chegar bem perto de sua porta e encontrar um pequenino papel em cima do aveludado capacho. Antes de pegá-lo leu a frase em vermelho marcada no tapete. "Para voltar, basta ir de trás pra frente". Ana adorava essa frase, estranha e enigmática. Como sua vida.
Resolveu ler o bilhete.
Ana, não esqueça de almoçar. Fui ao cabelereiro. Beijos, Mamãe.
Ok, logo agora minha mãe resolve sumir.
Olhou em volta antes de abrir a porta, foi então que sentiu alguem se aproximar.
- Menina, menina. Uma menina!
Ana virou-se.
- Oi? - O docinho saberia me informar aonde fica a casa número 34?
A menina tentou entender por uns instantes enquanto amassava o bilhete. Uma senhora de idade, com óculos de largas hastes e grossas lentes, dentro de um grande vestido colorido e embaixo de um florido chapéu amistosamente lhe encarava.
- Deve ser a casa dos Almeida. - e imediatamente apontou para o terreno ao lado, uma casa tão grande quanto o de Ana, porém, sem os cultivados jardins. - Ah, que coisa! É ali do lado! Desculpe eu invadir seu jardim assim. - Não tem problema. - Veja, você sabe se já foi vendida? - Vendida?
Ana Giovanni lembrou-se da família Almeida. Pessoas simpáticas. Um pouco distantes da vizinhança. Assim como ela. Ana também não era muito popular entre seus conhecidos de rua. Alguns até torciam o nariz quando passava, mas sabia que viver entre a classe média-alta dava a incrível vontade de se matar de vez em quando ou engolir alguns litros de Veja Multi-Uso. Talvez seu único amigo fosse Justus. Então lembrou-se de encontrá-lo também. Não podia perder tempo. Mesmo.
- Sim! - bravejou a senhora - Está a venda. Segundo consta este jornal.
Retirou um pedaço de papel da bolsa de crochê que carregava ao lado de duas maletas abóboras e abriu-o.
"Rua Mirante Flores. Número 34. Vende-se."
- Que estranho, não sabia que os Almeida tinham se mudado. - Ah, minha filha. Sabe como é a violência. - Meu bairro não é violento... - Ah, minha querida, qualquer lugar nesse pais é um caos.
Ana Giovanni viu a estranha figura retirar um leque e começar a balançá-lo freneticamente.
- Olha, preciso entrar. Minha mãe... - lembrou-se que estava sozinha - Minha mãe está me esperando. - Ah, está? Que lindinha. Posso perguntar uma coisa? Bom, sua mãe sabe cozinhar? - Ela sempre está ocupada - tentou por um tempo lembrar da última refeição apreciada e feita por sua mãe, mas desistiu e inventou algo - Mas o bolo de chocolate dela é uma maravilha. - Hm! Isso está me dando uma tremenda fome, bonitinha.
A figura acenou e passou a caminhar para o terreno ao lado. Ana abriu a porta e entrou rapidamente.
Subindo as escadas de Madeira Real, sentiu um calor percorrer seu corpo. Agarrou no corrimão enfrentando a dor, uma forte sensação de quentura dirigiu-se ao seu tórax. Correu ao quarto imediatamente jogando a mochila em cima da cama, abriu o casaco e olhou para o espelho antes de levar a mão ao pescoço. Foi quando viu o pingente de seu pai, dado por sua mãe, brilhar intensamente.
Uma luz prateada pulsava de dentro do colar. Ana levantou-o e balançou entre os olhos. Cinzas.
- Legal!
A voz do pequeno Justus disparou pelo quarto enquanto Ana se assustava com o objeto. O garoto entrou pela janela e correu em sua direção. Sentou ao seu lado estupefato.
- Justus, você não vai acreditar.
A menina olhou para o garoto e os dois se voltaram ao colar.
- Ana, se eu disser o que aconteceu hoje, talvez seja você que não vai acreditar!
Do outro lado da casa de Ana Giovanni, no número 34, uma campainha soou para o Seu Almeida. O sujeito caminhou até a porta e abriu-a lentamente. Antes de ver quem estava batendo e perguntar quem era, perdeu os sentidos e desmaiou. A porta do número 34 se fechou bruscamente quando a figura do lado de fora caminhou por cima do sujeito estendido no chão e entrou. Uma tenebrosa luz violeta percorreu toda a casa. Em seguida um zumbido soou abafando os gritos dentro da residência. As janelas se fecharam sozinhas ao mesmo tempo.
Então a luz sumiu e não se ouviu mais nada.
Escrito por José Amarante às 3:09 PM // Link este capítulo
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