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capítulo I - Onde?
Bahia, Vilarejo de São Tomé
O sujeito baixinho arrastou a cômoda para perto da janela com dificuldade. Subiu ofegando com o pé esquerdo, e assim quase cambaleando debruçou no parapeito da abertura em mármore na parede do salão. Lá fora, podia já ouvir as preces todas abafadas pela grande fogueira no centro do pátio. As chamas faziam uma dança engraçada no ar, juntamente da fumaça que parecia bailar aos movimentos das mãos das mulheres a sua volta. Mulheres idosas vestindo roupas rendadas, cabelos bem presos e portando estranhas máscaras de uma madeira escura. O sujeito sabia que eram senhoras. Ele conhecia bem aquela cultura. E mesmo na situação em que estava, tudo era muito mais lúdico e desesperador. O ar demorou a sair quando deu-se conta de que estava prestes a levantar no parapeito da janela e fugir por ali. Sentiu os pés tremerem em cima do pequenino móvel de madeira e suando muito, levantou a própria batina para facilitar os movimentos. Sabia que não tinha destreza alguma para executar a próxima função que estava preste a cometer.
Deu uma rápida olhada para fora pela abertura e viu os cinqüenta metros de altura surgirem numa tontura desesperadora. Por um momento sentiu sua própria gota de suor escorrer pela face, deslizar pelo queixo e cair silenciosamente no breu dos jardins perto da edificação. Uma poderosa vertigem surgiu em sua mente fazendo-lhe agarrar nas portas de madeira da janela da grande igreja. Balançando ainda com o vento, sentiu o frio do medo correr pela nuca, umedecendo toda sua espinha com a adrenalina e chegar até o córtex.
Lá fora, a poucos metros dali, alguém poderia ouvi-lo talvez se gritasse por socorro. Mas a música de uma simples banda que tocava ecoava sobre a área criando uma espécie de barreira sonora na movimentação. O sujeito olhou para trás e lembrou-se do ocorrido.
Oh, meu deus. Salve-me! Eu suplico a ti nesta hora!
Seus lábios começaram a tremer quando ouviu o som de passos. O barulho entrecortado com a musica agitada na noite lá fora fez seu coração acelerar. Então alguém ou algo parou diante da porta do outro lado. A sombra nitidamente posicionada. O suspense poderia matá-lo. Segundo a segundo descargas de choque de seu cérebro eram enviadas para não desmaiar. Suas pupilas dilataram quando a porta abriu-se violentamente criando um estampido que cortou rapidamente o aposento e se dissipou pela janela afora. O pequenino padre começou a cantar uma música antiga. Suas mãos taparam o rosto quando a figura a sua frente calmamente entrou na sala. Os pés pisando no assoalho rústico como se estivesse calculando cada centímetro que permeava seu caminho até ao amedrontado sacerdote. Por um momento, o padre deixou escorrer algumas lágrimas enquanto tentava continuar a música.
- Bonne nuit, mon vieil homme.
O corpo do padre foi arremessado pela janela. Seus olhos se fecharam antes da própria carne bater e se quebrar no jardim lá embaixo. Ali ao lado, um evento alegremente marcava o início das festividades de São Tomé. As crianças pararam de dançar quando o vulto terminou de fazer seu trajeto até o chão. Então a música parou quando um grito sobressaiu-se em meio a multidão.
Escrito por José Amarante às 4:46 PM // Link este capítulo
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