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capitulo XI - Chame-me de Lu

A senhorita loira atrás do balcão de utilidades, repleto de brincos, jóias e outros adereços reluzentes articulou um sorriso ligeiro para a figura à sua frente. Estendeu uma dúzia de pedras preciosas, topázios, rubis e diamantes esculpidos em ouro branco até o sujeito relinchar pedindo mais amostras. Gentilmente a moça esgueirou um outro sorriso e resolveu ir ao estoque.

A figura abriu um sorriso pelo canto da boca. Ajeitou o paletó Dior por cima da camisa de cetim preta e ajeitou a gravata italiana. Completamente bem vestido e chamando atenção de várias mulheres que por ali passavam, o sujeito mirou um espelho para provas e tornou a face em nojo. Virou o espelho lentamente, sem usar as mãos. Se alguém por ali passasse ou estivesse a admirá-lo de mais perto, talvez nem acreditasse no que acontecera. A atendente da loja demorou alguns segundos até voltar trazendo duas caixas grandes embrulhados em um papel branco e ainda rindo, como se estivesse prestes a fazer a maior venda de sua carreira.

- Senhor... - torceu o nariz envergonhada tentando preencher o vazio da frase.
- Lúcifer, sucrerie.

A atendente quase pode ver o brilho roxo que percorreu os olhos do sujeito à sua frente, mas envolta em um puro êxtase típico dos comerciantes prestes a uma vitória como aquelas, nem se importou com os desproporcionais e salientes caninos mostrados no sorriso do rapaz de simpática forma.

- Aqui está - abriu uma caixa com dificuldade, até revelar duas grandes pedras amarelas - são do Cairo. Chegaram ontem do estoque confidencial da loja, mas acredito que o senhor Luiz nem vai se importar - e tornou a rir com um apavorante nervoso.
- Mon cherie, não se preocupe. Seu patrão deve estar muito feliz por você me trazer essas belezinhas.

A menina riu novamente. Nervosa.

- Senhor Lúcifer...
- No, no, no! Chame-me de Lu, mon doux - levou uma das fortes mãos até o rosto gorducho da atendente e afagou o queixo reluzindo um dos 5 anéis dourados.
- Oh... - se recompôs diante de alguns burburinhos na loja, algumas senhoras faziam questão de cochichar entre si a cena no balcão - Perdoe-me! Senhor Luci, digo! Senhor Lu.
- Ah, bem melhor.

Continuou a abrir as caixas, agora a segunda, revelando uma pedra azul-celeste, bem clara, embutida dentro de um anel côncavo. Os olhos de Lúcifer brilharam mais uma vez.

- Ele realmente não teve inspiração maior para criá-las, não é mesmo? - olhou para a moça tonta de ambição - Se não fossem as minhas excelentes idéias como a luxúria, a inveja, a soberba - parou e olhou em volta. Mirou as pessoas que estavam ali também, cheias de pedras preciosas, roupas caras, ostentando o luxo de forma vulgar, como verdadeiros modelos vivos de vitrine - A avareza...

Lúcifer soltou uma pequena risada irônica.

- Infelizmente vocês, os demais, tiveram o esforço de achar as maiores relíquias que pousaram neste mundo e fizeram questão de trancafiá-los em cofres, transfomaram em moeda de troca, deram de presente para a vagabunda da esposa de vocês. Ou então, viram que era tão pouco, quando as já escassas sumiram do olho da maioria.

Retirou com cuidado uma das duas brilhantes pedras amarelas ofuscando sua visão por uns segundos ao encontrar a luz artificial da loja.

- São tão bonitos, não acha?
- São lindos.
- Sabe, uma menina como você, atrás desse balcão, não terá muita sorte nessa vida medíocre assalariada. Tudo bem que vocês chamam de sobrevivência. Mas eu chamo de tolice. Deus deixou vocês bem estúpidos mesmos. Ficarão perplexos quando chegar a minha hora. Qual que devo fazer a terra engolir primeiro? A Igreja Universal ou a Igreja Católica?

Passou a língua áspera entre um dos dentes caninos e revelou mais um, prateado.

- Mon doux, não tens idéia da merda que Deus meteu vocês.

A menina não ouvia. Estava em êxtase. Quase um estado de transe.

Lúcifer pegou as duas pedras egípcias e enfiou dentro de uma bolsa de couro avermelhada. Retirou o anel da segunda caixa e enfiou dentro do dedo médio. O anel se encontrou com outros três anéis.

Curvou-se sobre o balcão e estalou um rápido beijo na boca assustada da atendente. Virou-se e passou a caminhar em direção à porta. Passou pelo sinal de alarme, prestes a tocar.

Não tocou.

Do lado de fora, numa movimentada e badalada rua de São Paulo, Lúcifer mirou os determinados demais caminhando pela calçada. Eram velhas, meninas, jovens, senhores. Todos afortunados em seus preciosos objetos.

Retirou os óculos escuros de um bolso de seu alinhado terno e colocou-o. Olhou pelo relógio e viu que ainda havia muito tempo até Skiter encontrá-lo. Sabia que o demônio era um tanto desastrado e bobo, mas fazia a maioria das coisas de forma correta. Correta na sua percepção. Sentou-se em um banco calmamente e acendeu um cigarro de Bali.

Ao fundo, correndo, Skiter avistou a figura que mais lhe dava medo. Estava aparentemente calmo, mas sentiu uma fisgada quando lembrou-se do que estava prestes a contar.

O demônio-menor aproximou-se exausto e sentou-se ao lado de Lúcifer.

- Alteza, me... me perdoe.

Lu entendeu a expressão de horror na cara de Skiter. Não era preciso falar. Sabia que a carta que enviara a Deus confirmando a compra do Mundo fora interceptada. Por algo. Por alguém?, refletiu. Quem, em juízo de si, um demais qualquer, teria agora de enfrentar a ira serena do anjo decaído? Quem iria atrasar as negociações? Lúcifer levantou-se do banco e ajustou a roupa. Naquele exato momento, na rua em frente, um caminhão perdeu o controle da velocidade e vôou para cima da calçada. Atingiu cinco pessoas antes de se chocar contra uma loja e explodir.

O homem sorriu, apagou o cigarro no chão e passou a caminhar, abandonando Skiter.

Escrito por José Amarante às 9:06 AM // Link este capítulo

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