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capítulo XXXX – A perseguição

- Olhe Ana, olha como elas são grandes!

O menino parou diante da armadura avermelhada e virou-se para Ana Giovanni e Mustan. A Fumaceta soltou um chiado engraçado do outro lado do jardim e a menina sentiu que a máquina descansava, assim como gente. Mustan abriu um sorriso para o menino e voltou sua atenção para uma das rodas do veículo. A roda de madeira parecia instável demais e o pequenino ancião já retirava suas ferramentas dos bolsos para dar cabo do problema. Pregos, um pouco de cola e uma gosma azul.

Justus olhou para sua direita e viu outras cinco sentinelas encostadas em hastes de metal, próximas do paredão de rocha. Correu para uma delas e voltou a inspecionar os pesados grupos bípedes de Minério Real.

- Olhem, elas trazem espadas. Não lembram os heróis da Távola Redonda, Ana?

A menina girou os olhos e concordou em tom de desânimo.

- Vamos Justus, deixe essas coisas para lá. Vamos conhecer a cidade de Pan Solaris.
- Fica calma aí, ô dona da razão. Quero me divertir um pouco mais...

Justus sem pensar, levou as mãos até a quarta armadura da fileira e tocou seus braços reluzentes. A armadura tilintou ao movimento e sacudiu-se ligeiramente. O menino agora tocava o conjunto de manoplas que consistia em proteger o braço e o antebraço. A armadura medieval provocava fascínio no garoto.

- Não toque nisso, quatro-olhos.
- Me impeça sua nariguda!
- Do que você me chamou?

Justus riu feito moleque chato.

- Eu sou um caçador de dragões, Ana! Eu posso enfrentar qualquer perigo!
- Você vai ver o perigo que você vai enfrentar quando eu chegar ao seu lado, seu debochado. – apontou em direção ao menino e gesticulou – Largue essas coisas, vai chamar a atenção!

Mustan percebeu o burburinho e olhou em direção aos dois jovens.

- Não façam muita bagunça, hein?
- Pode deixar, Mustan. Vou apenas mostrar para essa bola-fofa como se maneja uma espada! Eu sou o Rei Arthur!
- Largue já essa coisa, moleque! Pode se machucar!

O menino não deu ouvidos. A essa altura, a espada da sentinela havia se deslocado e Justus a manuseava a cima de sua cabeça. A espada devia pesar uns 5 quilos. Leve demais, pensou por um momento.

No instante seguinte, Justus não pôde perceber a velocidade do ocorrido atrás dele. A sentinela se desprendeu da haste provocando uma barulho de metal enferrujado e moveu-se sozinha para frente com uma pequena passada. Enquanto Justus, com grande força, pendia a arma laminada acima do corpo, a sentinela ergueu uma das mãos e ameaçou tocá-lo. Aliás, tocar não era o melhor verbo para distinguir a ação que se precipitou. A menina arregalou os olhos e gritou o mais alto que pôde.

- Cuidado! Atrás de vo...

Seria impossível acreditar que Justus fez o que fez. Em uma velocidade superior ao que se imagina que seria da capacidade de seus limites físicos, o menino saltou para frente e girou no chão até se desvencilhar da sentinela viva. A armadura não tinha olhos, mas sabia que os dois seres a sua frente eram intrusos no reino de Pan Solaris.

- Corram, crianças! Corram!

Mustan subiu na Fumaceta em três pulos e atingiu seu topo. Nas suas mãos, uma chave de fenda e um pote de cola-tudo, feito sabe-se lá com o quê. O velho esfregou as mãos no uniforme do circo e deu um pontapé no urso dorminhoco. O mesmo abriu um dos olhos e encarou a situação. Não pensou duas vezes. Ajoelhou-se no teto da máquina e Mustan subiu em suas costas. Quem olhasse de longe, jurava que era um cowboy.

- Vamos Zonco, vamos mostrar para esse enferrujado que Pan Solaris merece assistir ao Circo do Olho Verde! – girou a chave de fenda no alto e num segundo, estava no chão a poucos metros de Ana e Justus.
- Ela está viva, mas como?
- Depois eu explico, minha princesa! Agora deixe que Mustan defenda-os dessa terrível criatura sem coração. Saia da frente, sir Justus!

Justus, apesar de sua incrível façanha outrora, estava paralisado de medo. A espada ainda estava presa em suas mãos, atraindo a cada segundo a armadura andante.

- Tudo bem, sir! Vamos lutar junto, é assim que um cavaleiro se porta. – bravejou o velho ao posicionar-se ao seu lado.

A sentinela andava feito um daqueles zumbis norte-americanos, que rondeia os jogos de videogame. Os braços estendidos e cambaleante. A armadura parecia desequilibrada nos próprios pés de metal avermelhado. Ana correu em direção a Justus e puxou-o por um dos braços, mas o menino mantinha-se parado, no chão, imóvel. Estava assustado demais para movimentar-se.

- Mexa-se, menino. Não temos tempo!

Ana podia sentir o trimilico de Justus. Era como se estivesse frio, muito frio.

A essa altura, Mustan e o urso Zonco fechavam o caminho entre o monstro enferrujado e o jovem casal. O velho não parava de rodar sua chave de fenda acima da cabeça, estava eufórico.

- Zonco, vamos mostrar a essa lata velha como se concerta uma lata de nubalús fatiados e congelados à moda de Pan Solaris!

O urso soltou um arroto e levantou nas duas patas. O velho, sentado em suas costas, fez muita força antes de perder o equilíbrio e cair no chão de costas. Soltou um grito de dor e levou as mãos às costelas em sinal de que alguma coisa havia se partido. O urso voltou á posição de quatro e deitou no chão roncando alto.

- Isso não é hora de dormir, Ronco! – as dores ainda pulsavam na parte esquerda de seu tronco – Argh! Acho que Mustan se partiu em dois, minha princesa! Peçam ajuda!

A sentinela passou por cima do urso aos passos largos e desajeitadamente parou diante de Mustan caído. A armadura fez o que o velho por um momento imaginara, ameaçou passar ao seu lado, sem se importar com o homem caído e dolorido. A sentinela era atraída por Justus. Ou algo que estava com Justus.

- A espada, cavaleiro! Solte-a!

Mas Justus não ouviu. Ouvir, até ouviu. Mas suas mãos não obedeceram ao alerta. A sentinela, ao som de “cracks” e “zrrrincs”, ou como um milhão de moedas ricocheteando dentro de uma lata de refrigerante, continuou andando em direção ao menino.

Justus então se mexeu.

Levantou. Ana arregalou os olhos e agradeceu pelo gesto oportuno do amigo. Mas Justus não largou a espada da armadura viva. Correu em direção a Fumaceta, fazendo com que Mustan e Ana o seguissem. Ronco permanecia imóvel, no oitavo sono.

- Roooonco! - Mustan gritou enquanto corria em direção ao veículo. O urso levantou um olho e preguiçosamente, desatinou a caminhar em direção à Fumaceta. – Mas que animal desajeito, por mil dragões dourados!

A Fumaceta roncou alto três vezes quando Justus, Ana Giovanni e Mustan, o dono do Circo do Olho Verde, entraram em suas partes internas. O menino soltou a espada dentro do veículo e sentou-se no banco da frente. Seus olhos eram como duas grande bolas de gude. A expressão de medo era visível.

- Nem vou falar nada. – disse Ana sem olhá-lo, mas no fundo, todos sabiam do que ela havia insinuado naquele momento de tensão – Mustan, precisamos ligar a Fumaceta!
- Sim, minha princesa, assim que eu achar minha chave de...

O metal enferrujado estava a metros de distância do carro.

- Mas por diabos, ela caiu quando Ronco desajeitado decidiu voltar a dormir.
- Não temos muito tempo, Mustan, ela vem indo!

O velho deu um pontapé na madeira crua da carroça e ela xingou. A menina olhou para dentro da Fumaceta e encontrou as três bailarinas do circo encolhidas em um dos cantos. O urso nem estava na metade do trajeto, quando a sentinela se aproximou cambaleando. Os braços de ferro vermelho estendidos, era perceptível sua ansiedade em recuperar o objeto roubado.

- Jogue essa maldita espada para fora da Fumaceta, sir Justus!

A Fumaceta cuspiu seu nome pela chaminé e começou a se movimentar. A sentinela percebeu e estranhamente parou no meio do caminho. Ana olhou para trás ainda quando viu a armadura de metal vermelho desistir de segui-los.

- Rá! Eu sabia, a espada é minha! – bradou o menino.
- Justus! Você quase nos matou! Você percebeu o que fez agora pouco?
- Mas temos a espada, Ana. Veja, já temos nosso Minério Real...

Mustan olhou para o lado e bravejou.

- Não seja tolo, cavaleiro. Sentinelas cegas nunca desistem de recuperar parte de si que foi perdido.

Ana sentiu um calafrio, mas antes de ter certeza do pior, percebeu as mãos de Mustan tremendo no volante da Fumaceta. Não sabia se era o balançar da própria carroça motorizada ou o medo impregnado no pobre velho.

No belo jardim de entrada da cidade de Pan Solaris, todas as sentinelas, pura armadura de minério real, se desprenderam sozinhas de suas hastes. Elas não eram como a primeira armadura viva. Algo assustador as movimentava em direção a Fumaceta. Elas se mexiam agora como corpos humanos dotados de muito equilíbrio. A primeira armadura levantou um de seus braços metálicos e apontou na direção da carroça que se movimentava. Todas entenderam o comando. E começaram a correr na direção do Circo do Olho Verde.

Escrito por José Amarante às 9:24 AM // Link este capítulo

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